A minha mãe, o meu pai, as datas especiais e eu. O mundo.

Dia da Mãe e Dia do PaiSempre fui de amar na distância. Em áreas longínquas do pensamento, a sentir que amo sem dizê-lo.

Apesar do muito que escrevo, sempre amei mais no quanto não demonstro. Sou assim. Ou era assim. O tempo tem-me ensinado a mudar isso. É preciso mostrar, o sentir não é suficiente, não satisfaz a necessidade de carinho dos que nos rodeiam e amamos, como não satisfaz a nós a ausência dessas demonstrações.

Aos poucos, é preciso evoluir, ir demonstrando amor, sentindo-o com mais força. E só com o tempo tenho aprendido isso. Sou mais selectivo, entrego-me menos e poupo-me mais, mas sou mais feliz. E tento fazer as pessoas mais felizes. As que me valem.

Os dias da mãe, do pai, etc, nunca me disseram nada. Agora, começam a dizer. Não porque eu os sobrevalorize, mas porque compreendo que fazer deles o único dia especial não resolve nada, mas ignorá-los também não é bom. Os protocolos, os chavões, existem por algum motivo. Mas eu teimava em ignorá-los, sempre querendo ser diferente, fixe, e por isso procurando o distinto, para tentar encontrar o encanto no mágico, no transcendental. Isso, porém, nem sempre é possível. Não raras vezes, o sublime está no dia-a-dia, no aglomerado de acontecimento fortuitos e, aparentemente, infrutíferos que nos povoam o quotidiano. Aí está a felicidade, no quotidiano. O especial, o transcendente, o maior que a imaginação, acontece uma vez na vida. Se o esperarmos toda a vida, resumiremos a nossa vida a um dia, a um instante, que passará no sopro dum assobio de pássaro, que nem a primavera da existência nos chegou a pintar.

Será uma vida feita de futuro até à chegada do momento e vivida de passado após a finalização dele. Será uma vida triste.

Por isso, por tudo isso, hoje respeito mais os dias da mãe, do pai, etc. Não são especiais, devem é ser carinhosos, meigos, ternos e, essencialmente, de agradecimento. Obrigado, mãe. Obrigado, pai. Não vos devo muito, só uma vida. O que eu faço com ela é que a torna especial. E isso, ao contrário do que todos dizem nestes dias, não depende assim tanto de vocês. Depende de mim. Sempre dependerá. Vocês mostraram-me os caminhos, os vossos, os que conheciam. Se eu segui outros foi porque vos quis orgulhosos. E isso eu só conseguiria com passadas minhas. De outro modo, seria o reflexo dos vossos erros e jamais criaria os meus; seria o reflexo dos vossos sucessos e jamais teria os meus. E nunca foi isso que vocês quiseram e não é isso que vocês querem. Portanto, se tenho algo a agradecer-vos, pensando bem, são duas coisas: a vida e a liberdade. Que prometo usá-las, sempre, da melhor da melhor forma que sei. Para que vocês sejam felizes, gratos pelo trabalho que fizeram, mas para que eu também não seja só um resultado das vossas expectativas. Para que crie as minhas. Para que seja o puto doido, que era orelhudo em criança, insubordinado na adolescência e incapaz de estar sossegado na idade adulta. Nunca viverei para outros, nem para vocês, porque sei que isso é o que nunca desejaram. Serei sempre o Ricardo que quiser ser. E isso, sim, devo-o a vocês, à liberdade que me deram e dão para escolher os meus caminhos. Sejam certos ou errados, são meus. E vocês, temendo, confiam que eu me vou ver livre dos problemas e criar soluções. E isso é o valor dos dias da mãe, do pai, da avó e do avô que se criam no quotidiano sem que os vejamos.

O dia de hoje só é especial porque quero que saibam que vos amo. E os outros dizerem que amam e nós não o ouvirmos, mesmo que saibamos que não é por mal, magoa. E por isso mudei. Por vocês e por todos os que amo e amei e nunca soube valorizar nos dias que ignorava por mania, por desejo de ser fixe e procurar o inédito. Sem perceber que o inédito somos nós, seja em que circunstância for, desde que o façamos com amor. E eu amo-vos, pai e mãe e afilhado e avós e tios e tios e primos e primas e amigos e gente gira e toda gente. Eu amo o mundo. Nos dias especiais, marcados no calendário, e nos outros todos. Amo o mundo. E quem o faz.

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