Uma opinião que não consigo ter

Uma opinião que não consigo ter

O Rúben parava. Era-lhe natural a essência de parar, aguardando o que dali viria. Parava a olhar o mar, parava a olhar as flores, parava a olhar o trabalho, parava a olhar a vida. O Rúben parava. O Carlos, por outro lado, acelerava. Acelerava ao ver o perigo, acelerava ao sentir a indecisão, acelerava ao notar a vida a passar.

O Rúben e o Carlos eram dois portugueses, que paravam por Bruxelas nos últimos dias. Sedentos de existência, cada um à sua maneira. Um estudando a economia dos dias, outro engendrando a avalanche de hipóteses que desejava que a vida lhe outorgasse. Um buscava trabalho, outro procurava experiências, aventuras. Naquele dia, juntaram-se num café. Só quem nunca esteve no estrangeiro não pode imaginar o que é ouvir a musicalidade da língua portuguesa no outro lado da mesa de café, numa geografia diferente. Apresentarem-se. O Carlos pôs conversa, o Rúben hesitou. Mas ambos falaram. Um levava uma mochila e outro uma maleta de trabalho. A Europa e o Mundo estavam contidos em ambos, naquele momento.

Prosseguiram pela passadeira, cada um afinando o seu caminho. O do Rúben para o trabalho, ponderado; o do Carlos para a descoberta, estouvado. Quando passavam no aeroporto, nos embarques, que era onde se haviam conhecido, uma bomba estoirou. O pum ensurdeceu as pessoas e o Carlos, instintivo, correu na direcção do som, alardeando à atenção do Rúben. O jovem economista português, minucioso nas suas decisões, não o atentou. Ele é doido, deu para perceber – pensou, instintivamente e confusamente, o Rúben. Seguiu caminho dali para fora, tremendo. Pegou num metro que atravessava as imediações, no imediato. A sua segurança era tão necessária quanto o instinto de fuga. Não é, nem nunca foi, uma pessoa talhada para as decisões do imediato. O excel sempre lhe toldou os movimentos instantâneos; necessita de cálculos, de fórmulas e de ideias. E o ápice não permite nada disso.

Quando entrava no metro, apercebia-se pela expressão e conversas das pessoas que a explosão não havia sido única. Tinham sido duas. Duas explosões num espaço tão exíguo. Isso doeu-lhe, fê-lo imaginar as vidas a perpassarem por instantes únicos, macabros, naqueles poucos segundos, em duas zonas do aeroporto. Lembrou-se do Carlos e dos tantos mais que ali poderiam estar naquele momento e que ele conhece. Tentou abstrair-se e deixar-se dominar pelo medo. O medo era-lhe mais cómodo que a coragem. Seguiu caminho e, quando chegava ao seu destino, o metro tremeu, o chão desapareceu e o fumo inundou o ar.

O Rúben ia num metro que atravessava a explosão seguinte, a da estação.

Esta história não tem nada de verídica, tirando a parte má da  existência das explosões. Mas serve-me para explicar que o que me aflige é isto: não há uma forma certa de lidar com isto. Concordo que o problema é anterior ao imediato dos atentados, que o corte de relações (nomeadamente económicas) é fundamental, que se deve trabalhar a educação das crianças com um espírito livre, de aceitação, mas nada disso me parece ser suficiente. Eu não sei o que é ser melhor pessoa, sei o que é não podermos ser o que queremos. Aliás, imagino, ou tento imaginar, se é que isso é possível. Portanto, suponho que os que se alojam em acampamentos desumanos, depois de anos de viagem, não podem ser apenas maus, muito pelo contrário. Na sua maioria, devem ser desesperados, aflitos. Enfim, humanos. Mas quando chegamos a este nível de fanatismo, dos que se explodem ou estão dispostos a matar inocentes, deixa de existir a coerência. E isso é o que mais me assusta. Não há argumentação válida para estas pessoas – que não são os refugiados, na maioria ou totalidade dos casos. Por muito que procuremos soluções lógicas, estamos sempre a batalhar contra pessoas que não trabalham ao nível da emoção, da empatia, da lógica, mas, sim, da desumanidade, do escabroso, do inteligível. E isso, sim, é o que me assusta.

Portanto, não sou dos que critica os que outorgam opiniões, sejam mais certas ou erradas. É a emoção. E ela não nos deve derivar para a loucura, de maneira nenhuma. Mas isso ainda é o que nos mata mais. Não temos saída, quando do outro lado não são saídas que se procuram. Querem só sangue, poder, impunidade. E isso enoja-me, aflige-me e deixa-me sem saídas visíveis.

É certo que não sou eu que tenho o poder de tomar decisões – nem deveria ser -, mas atormenta-me quando nem uma opinião consigo ter.

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