Política com cabeça

Política com cabeça

A pergunta que eu me coloco, com a toda a especulação que a isso está associada, é: nestes últimos 4 anos, acaso tivesse vencido o PS, as políticas teriam sido diferentes?

Eu sei que não é intelectualmente aceite que alguém defenda a direita (sem ter interesses obscuros ou a conta recheada), quando nos últimos anos se viveram privações tremendas. Mas eu também me coloco outras questões: tenha sido o PSD a chamar a troika; o país era sustentável sem ela (vulgo dinheiro)? É claro que não concordo com a dose austera que foi colocada, esganando a economia. Contudo a economia também é viável, sendo sucessivamente assente em empréstimos maiores que os que temos possibilidades de pagar?

Eu não estou a dizer que a coligação fez tudo certo, porque não fez. Mas fez uma coisa que considero fundamental, quando quero deliberadamente um país inovador e voltado para a geração de lucro: promoveu o investimento, criou (ainda que partindo de bases de carência) um ambiente propício às novas empresas e ao investimento pessoal. Eu sei que cortou as pensões, eu sei que alterou normas de acesso à saúde, eu sei que fechou hospitais e barrou concursos públicos de emprego. Eu sei isso tudo e não estou satisfeito. Mas sei também que, com unhas, dentes, cabelos e algo mais, me agarrarei a este país para por cá tentar vencer. E vencer não é só ser bem-sucedido profissionalmente, é também sair de casa ao sábado de manhã, com um livro debaixo do braço, e pôr-me de frente para a ria a ser galanteado pelo sol e sussurrado pelo vento; é nesse mesmo dia ir jantar com os amigos, num churrasco ou restaurante, pondo conversa fora e ganhando experiências, carinho e amizade. Isto, para mim, é qualidade da vida. E Portugal, tendo condições económicas para isso, e não dissociando a vida-social da financeira, será dos melhores países para viver. Garanto-vos, com base nos que para emigram na reforma.

Portanto, não esquecendo que também já vivemos na base da austeridade pelas mãos do partido da rosa, tento abstrair-me disso para pensar o que quero para mim, enquanto cidadão deste país. E dou nota que tenho emprego, os meus pais têm emprego, mas somos uma família de operários onde eu, a custo, tirei um curso superior e me materializei num emprego que me traz coisas boas (como a sensação de realização), mas que não me dá condições de ser um capitalista. Longe disso. Vivo pouco humildemente, porque me agiganto perante os meus ganhos. Sou mais de fazer o que me apetece, do que o que dinheiro (em pensamento económico) me permite. Portanto, vejam lá, defendo a dita direita, mas vivo à esquerda. Os meus direitos à felicidade estão sempre à frente, mesmo que agora a minha conta espremida dê uma gorjeta mediana num restaurante bom de Berlim. No entanto, voltando atrás, quero um país onde se viva alegremente, mas não levianamente. Quero um país onde haja patrões/líderes, porque, queira-se ou não, são eles que nos garantem emprego, quando não queremos criar o nosso próprio. E nós queremos emprego primeiro e dinheiro depois, ou dinheiro primeiro e emprego depois? É que, pelo que vi e assumindo o meu possível erro: a proposta do PS está assente numa lógica que a economia é que vai criar empregos e não que a criação de empregos é que vai melhorar a economia. E isso é que eu não percebo e me afasta de um possível voto mais à esquerda.

Sim, porque eu punha – e sempre pus – a ideia de votar mais à esquerda. Esta é a vantagem de ser livre, de pensar pela minha própria cabeça e não ser afiliado em coisa alguma: sei que um país tem diferentes fases e, portanto, cada fase poderá pedir uma política diferente. Como acontece numa empresa, ou com uma simples pessoa que passa por circunstâncias diferentes da vida. E o pensamento imediato e circunscrito aos últimos quatro anos, poder-me-ia fazer pensar que precisamos duma política de esquerda agora. Contudo, a política económica deles não me convence e também não estou ainda convencido duma coisa: nestes últimos 4 anos, acaso tivesse vencido o PS, as políticas teriam sido diferentes?

E, por isto, é que revelo o meu voto (sem qualquer ligação partidária, sem qualquer firmamento ideológico e sem qualquer família abastada ou com interesses): o PS, pela voz de António Costa, não me convenceu que tenha uma ideia clara duma política que defenda um apelo ao investimento. E eu acredito que, a médio-longo prazo, esse investimento do papão estrangeiro e do pedinte nacional é que poderá consolidar o nosso país. Toda gente diz que queria viver na Finlândia ou na Noruega, mas ninguém se lembra que lá se pagam impostos insuportáveis. Tudo é gratuito, mas tudo se paga. Em impostos. E os impostos só são possíveis de serem pagos, quando temos rendimentos para pagá-los. E os rendimentos vêm do emprego. E o emprego vem do investimento. E o investimento vem da tecnologia e da inovação – e aqui é onde discordo da nossa política; as nossas universidades já deviam estar a ser mais aproveitadas para o sector empresarial. É nelas que estão os meios que nos possibilitarão criar empresas mais capazes, que empregarão quadros mais eficientes – e superiores -, que são os tais génios que estamos a deixar fugir. Na Alemanha há tão boas rentabilidades de vencimento, porque muitos dos centros que lá se encontram são tecnológicos, e não só produtivos. E um engenheiro, como se espera e calcula, ganhará mais que um quadro sem formação. É uma lógica do retorno do investimento anterior: aposto na formação, recebo na aplicação dos meus conhecimentos.

E julguem-me, condenem-me, trucidem-me, que é isto que eu acho na mesma. Falando com a cabeça, claro. Porque com o coração seria outra história.

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