A liberdade foi cancelada

Liberdade Cancelada

O decreto da liberdade foi cancelado. Saiu, por entre as páginas do Diário da República, um memorando (que palavra tão em voga!), que decreta que a liberdade foi cancelada.

Durante muitos anos, ela foi estupidificada, aldrabada e mal aproveitada, pelo que se decidiu cancelá-la. Tornou-se chancela dos predestinados. Doravante, meus caros, só os predestinados terão a liberdade de ser livres. A escolha de ser livres. Porque a escolha, meus amores, é a liberdade. E isso é o que não se percebe. Tão subjugados na inerência de compreender os defeitos dos que se elevam, ou as minudências dos que não se levantam, deixámos de perceber que a liberdade é, tão-somente, uma escolha. A possibilidade do escolher entre o fazer ou consentir, ou falar ou calar. Tudo isso é uma liberdade.

Porém, com o volver dos anos e a generalidade das ocorrências, temerou-se a vontade incólume de sermos quem somos. Não podemos ser passivos, se a receita do sucesso é a pro-actividade. Não podemos ser calados, se só os faladores são triunfantes. Não podemos ser distraídos, se só os hiperconcentrados são bem-sucedidos. Não podemos ser nada do que somos, por risco de não sermos iguais aos outros – aos exitosos. Portanto, que se termine com a liberdade. De nada ela serve, quando não a queremos.

A liberdade, agora, é como a comparação entre um relógio que foi oferecido a todos, numa feira de Carcavelos, e um que comprámos numa loja do centro comercial Colombo. O da feira de Carcavelos, mesmo sendo o mais bonito, elegante e bem trabalhado, é o que todos escondemos, porque é o que todos têm. Enquanto o outro, mais feio e mal costurado, é o que ostentamos na mesa do café. Não é porque achemos que o vão admirar, é só porque não o vão reconhecer e não nos associarão à Feira de Carcavelos. É mais cómodo e in.

A liberdade é igual, não a valorizamos, porque é de todos. E, então, tentamos criar cópias obsoletas de tudo o que os outros já foram. Saindo mal, claro. Porque nem nós somos eles, nem eles são nós. Muito menos os caminhos são iguais. Assim, a liberdade foi cancelada. Quem quiser, que a conquiste com o seu dinheiro de vagos grãos de carácter, para que seja merecida. E ostentada.

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