Marília

marília

 

Uns saberão, outros não, mas isso, também, é o que menos me importa agora. Há uns anos, nomeadamente três, escrevi um pequeno livro. Ele chamava-se Realidades, por sugestão e por um jogo de letras com o meu acrónimo, mas o nome não podia estar mais certo. Pelo que ele simbolizou para mim: foi uma realidade.

Não era um livro muito extenso ou complexo, porque a minha longitude de vocabulário, ou mesmo percepção da vida, assim não me permitia. Mas era um marco na minha vida. Sou uma pessoa desconexa, que viaja do sério ao insano em poucos segundos, que tem uma incapacidade incrível de se concentrar por longos períodos de tempo e que raramente se dá bem nas coisas, porque privilegia muito mais o momento do que a vida em toda a sua extensão. Uns, poderão vê-lo como algo bom; outros, poderão vê-lo como algo mau. Eu vejo-o como um traço do que sou.

No entanto, não é nada disso que me faz escrever estas linhas. Nessa altura, na parte da minha vida pessoal, estava feliz. Não só por tudo o que simbolizava para mim aquilo, como pelas pessoas que compunham os meus dias. Eram as mesmas de sempre, mas eu sentia-as de forma diferente. Quando estamos bem connosco, estamos bem com o mundo, valorizamos os sinais. Como dizia o Vergílio Ferreira: também os dias de sol deviam ter um Pare, Escute e Olhe, como as passagens de nível. E eu tinha esse Pare, Escute e Olhe. Estava Parado diante de mim, a Escutar as pessoas que me rodeavam e a Olhar para o que poderia vir a ser. Não fui tudo – pelo menos, por agora – do que aquelas pessoas me diziam que eu podia ser. Mas fui uma parte. E isso alegra-me e dá-me esperança para o que ainda tenho pela frente, seja muito ou pouco.

Ontem, uma dessas pessoas, de nome Marília, partiu. E eu, por muito que ponderasse os imponderáveis, que analisasse se devia ou não escrevê-lo, ao menos de forma de tão directa, não podia deixá-lo passar em claro. Não por tudo o que me deu, fossem pequenas correcções de português, boas sugestões de leitura, ainda melhores indicações de cultura, ou simples sorrisos. Mas apenas porque era uma pessoa sincera, humilde dentro da sua grandiosidade e imensa na sua bondade. Tinha uma das coisas que mais admiro nas pessoas: a capacidade de fazer os outros sentirem-se maiores do que o que realmente são. Por isso, pela pessoa que era e pelo tanto que me deu, mesmo agora já não estando tão presente na minha vida, precisava dizer-lhe um adeus, neste blogue, onde ainda estão tantas dicas que me deu.

Eu vou ser sempre o que sou, mas só o serei por todas as pessoas que cruzam a minha vida. Umas cruzam de rompante, outras cruzam em definitivo. A Marília, amiga, mãe e esposa de pessoas que muito estimei e estimo, foi uma das que ficou. Vai ficar sempre.

Obrigado!

(a imagem, na minha humilde distância, é só uma escolha que eu acho que ela apreciaria, para ilustrar este texto)

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