Não se metia com ninguém

Não se metia com ninguém

É tão difícil ignorarmos os outros, deixarmos prevalecer a nossa vontade sobre a deles, que nos deixamos enredar numa teia de sensações confusas, que nos baralham o que somos, para percebermos o que os outros são.

Os outros, esses, serão sempre os outros, porém vivemos numa sociedade que nos diz que não podemos esquecer a bondade, a atenção ao que sentem e são, mas que não nos permite desvendar o que, verdadeiramente, isso quer dizer. Dêem-me a mão e eu darei a mão de volta, se assim for. Não é a contrariarmos naturezas próprias que nos tornamos melhor pessoas, só recalcamos o que em nós existe. Queimamos as folhas das nossas desavenças com a vida e criamos as nossas próprias revoltas, que nos alimentam vontade doidas, porque não temos a capacidade de abri-las ao mundo. O juízo de valor é mais assustador que a prisão. As coisas parecem mal e, portanto, não podem ser ditas. Alimentam-se no silêncio, como pequenas  pragas  de formigas em torno de boiões de açúcar, para um dia explodirmos. Somos expostos ao erro, mas não assumimos o erro. Se dissermos que falhámos, seremos sempre os que falhámos, mesmo que nos digam que não tem mal. Temos uma sociedade avessa à sinceridade. Prefere a hipocrisia, porque ela milita nos quartos, nos vazios de cada um, para que não tenhamos que lidar com elas. Receamos que as nossas verdades, aliás, as verdades dos outros sejam demasiado próximas às nossas. Não podemos ser iguais a um assassino, não podemos ter nada de similar a um deles, porque eles são duma raça que não tem espécie, não tem feitio, muito menos modos. Só tem escabrosas sensações.

Porém, muitas vezes, não é assim. O assassino e o Papa já passaram por situações semelhantes, antes de se tornarem as pessoas que são, apenas  lidaram com elas – e canalizaram-nas – de forma distinta. Ir ao psicólogo é de louco, ter a coragem de dizer que não quer ajudar é de insensível, dizer que não pode amar outra mulher é de psicopata, ter dificuldade de lidar com a rejeição é de coitadinho e nada disso é aceitável. Depois, surgem à tona, como latas perdidas no fundo do mar, as dúvidas de cada um que se tornam revoltas generalizadas, com suicídios ou assassínios. E  nada disto era expectável, porque era um rapaz pacato, que ia à escola, fazia a vidinha dele e não se metia com ninguém. Mas o não meter com ninguém é que é o errado. E as pessoas esquecem-se, porque a unanimidade é a dormência. O erro não cabe, a diferença não cabe, a perfeição é que é o caminho. Mas quando a perfeição não existe, porque nunca existirá, está o caldo entornado. O suicida ou o assassino já estão criados lá dentro. No dentro que ninguém vê, porque ele não se metia com ninguém.

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