A minha viagem aos Açores

A minha viagem aos Açores

Apetece-me sentar neste muro. Olhar o infinito, no infindo espaço entre a  minha memória e o presente que vivo.

A felicidade, como o Saramago dizia, é egoísta, é um espaço só nosso onde cabem as nossas boas memórias e as nossas alegrias constantes, a harmonia, a que também ele definia, é onde cabe tudo em paz. E neste espaço, neste arquipélago que tive o prazer de conhecer e fotografar, conheci essa paz. O bucolismo dos locais é-me desconfortável, transporta-me a lugares da minha memória que não gosto de percorrer, a escombros de pérfidos momentos, mas é aí que encontro a paz que me potencia a harmonia. Não sou harmonioso a correr, não tenho harmonia na voz, contudo encontro a paz nas palavras. Nas que escrevo e nas que penso.

Os locais inabitáveis, escondidos do nosso quotidiano, são todos os que mais me disparam. Nunca me imagino a viver neles, nunca me imaginarei a viver neles, e quase sempre tenho momentos em que me sinto desconfortável neles. Porém, é nesse desconforto, em que a vontade se confronta com o incontrolável, que encontro o espaço onde desenho a luz dos  meus dias. A minha luz é desenhada, não é escrita. É desenhada pelas minhas vontades, construída pelos meus desejos e consolidada pelas minhas acções. Escrevê-la seria só sonhá-la.

Mas eu também gosto de sonhá-la, atenção. E, por isso, é que não gosto de me imaginar a viver nestes locais bucólicos, cheios de naturezas tão vivas que nos assombram os dias. Eu preciso de movimento, de me ausentar dos meus pensamentos, para criar os meus dias. Se penso, páro. E escrevo. Só escrevo parado, agarrado nos meus pensamentos e a viajar nas minhas ideias. E viver não é só isso, é mais, é luz, é acção, é desenhar e não escrever. Gosto de escrever, gostarei a vida toda, mas só porque ela – a escrita – me rouba dos meus dias, para me levar aos meus pensamentos. Aos tais que tento evitar. É confortável evitá-los, mas é indispensável visitá-los, para crescer, para melhorar, para voltar a sonhar.

Eu escrevo para voltar a sonhar. E visitei os Açores para nunca deixar de sonhar.

É um local onde se viajam ideias, onde se pensam momentos e onde se criam futuros. Futuros de amizade, futuros de amor, mas, acima de tudo, futuros de nós mesmos. Os Açores agarra-nos pelos pés na sua lava, queima-nos por dentro e faz-nos caminhar. E eu quero caminhar sempre, andar para frente, pisar, pé ante pé, a rocha vulcânica da minha vida. Os Açores deram-me isso.

Toda a minha vida terei vontade de voltar a visitar os Açores, os Alpes, ou qualquer outro dos sítios que me levou a locais tão incríveis como a natureza, mas jamais quererei viver num deles. Desiludir-me-iam. Não sou capaz de viver a pensar, preciso de fazer. A minha consciência pesa mais que a beleza dos locais. Mas a beleza das pessoas está nisso: na diferença. Tantos são os que lá vivem e são felizes. E eu, sem os conseguir invejar, consigo admirá-los como só um fã de ocasião o poderá fazer. Os Açores, os Alpes, as Serras ou os Interiores, nunca me desiludirão, mas também nunca me preencherão. E a certeza disso é que me faz visitá-los.

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