Casaco de Pele

Casaco de pelehá uns tempos, pensei voltar a escrever um livro. Começava assim: 

Quero amar esse amor que já não existe. Estou vazio na procura do tanto em que me preenchias. Quero escrever-te rápido nestas linhas, para não perder o embalo do que me outorgavas. Já não eras a mesma, ao menos comigo. Desdizias-te nas palavras, desdizendo-me nos pensamentos, mas sempre segurando essa flor com que caminhas na frente do teu rosto.

Tens uma primavera que nasce em ti, com toda a substância que esta frase acarreta. Precisas de uma fuga e eu, por já ter sido a chegada, tornei-me a melhor partida possível. Vejo-te a atravessar aqueles corredores, a perfumar o olhar de todos os que se cruzam contigo e sinto uma inveja deles que não consigo evitar. Procuro outras mulheres, deito-me na cama delas e não encontro a tua beleza. Ainda não estou preparado para admirar outras belezas que não sejam a tua. É doloroso, rouba-me do recobro do meu comodismo, mas não consigo evitar. São meses em redor desta labuta por desfazer em papéis pequenos o livro do nosso romance.

Pela primeira vez, apagaste as fotos do nosso amor. É o sinal máximo do tanto que eu não queria ver. Sou demasiado romântico para aceitar fins. Também eu já os tinha imaginado e até procurado, mas a beleza do teu olhar a pedir-me o regresso relampeja agora no meu coração como um trovão que destrói um poste. Queria rodar os ponteiros do maldito tempo que me absorveu na ideia errada de que o problema estava em ti. Não fui homem para te confrontar, achando que era homem ao poupar-te. Errei, criei o espaço que agora é inatingível. Eu sou capaz de tudo, tu não és capaz de nada. Estou depressivo. Quero traduzi-lo nestas palavras e fico a temer a saudade que me pode atacar a cada nova linha que escreva. Queria fazer um livro, homenagear assim a saudade que posso perder no decorrer dos anos, mas não creio que seja capaz. Dói muito. Ao cabo de alguns tempos, dói muito. Quedo-me a viver uma ilusão que tu já apagaste. Sei que agora vais partir na lembrança de outras coisas que não tens, mas podes ter. Nós desejamos sempre as mulheres que não temos. Só a ti desejei mais que as imaginações, mas mesmo isso perdeu-se nas instigações do que me consumia. Sou demasiado confuso, sou demasiado amarrado ao passado e demasiado inseguro em relação a mim. Sou tudo o que não quero ser, sendo tanto do que desejo ser. A família é um habitáculo que serve de rescaldo das aventuras que pelo mundo faço. Deixei-te sem resposta. Sei que foi por orgulho, mas deixei. As lembranças são traiçoeiras. Às vezes, não nos trazem à memória o que vivemos, trazem-nos o que queremos sentir com saudades. E, por isso, decidi não responder.

As tuas certezas são verdade até se tornarem mentira. As minhas dúvidas são dúvidas até encontrarem respostas. Será que alguma vez as encontrarei? Não sei, sei que quando criamos a barreira mental do que não queremos e a distância física do que não desejamos viver, conseguimos distinguir o que são sentimentos e vontades. Ganham sempre as vontades, que até vestem um caso de pele de animal, que, mesmo sendo falso, parece mesmo verdadeiro. Será que esse casaco se rompe mais rápido e deixa o real tecido à vista?

Mais uma vez, não sei. Sei apenas que tenho que serpentear esta dor, com todas as maleitas que me ocupam o coração. Nunca fui aquele homem magnificente, que sentia que não necessitava de ninguém, dos momentos em que me enviaste lá para cima. Mas também sei que não sou este homem escuro, dos tempos em que vestes o casaco de pele. Sou uma mistura dos dois, talvez. Mas ainda gostava de te despir esse casaco de pele e sentir a tua verdadeira pele. Talvez aí, nessa amálgama de passado e futuro, os nossos hojes se voltassem a encontrar. Quem sabe. Agora é só vazio e dores, que tento tatuar nestas linhas desfeitas de um texto que já não existe. Como dizia Bernardo Soares: são só fragmentos. Fragmentos soltos, multiplicados pelas saudades, que se baralham entre a verdade e a mentira, entre o certo e o duvidoso, e entre todas as incongruências que mostrámos um ao outro. Somos ambos reféns das mesmas palavras, sem nos apercebermos disso. Eu, porque largo-as a cada hora; tu, porque as guardas nesse cantinho de coração, feito de cabeça. Seriam verdade ou não?

Nem nós podemos saber.

2 thoughts on “Casaco de Pele

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