Portugal de Opiniões Generalizadas

Portugal de opiniões generalizadas

Custa-me muito que Portugal se esteja a tornar este país de opiniões generalizadas, cheias de éticas e brandos costumes, que não cabem na nossa vida, mas têm que caber no nosso mural de facebook. Eu gosto de ler clássicos da literatura, mas também gosto de dizer merda. Sou menos digno por isso?

A Control, uma marca de preservativos que, por natureza, apela ao sexo, mas protege das doenças e abranda a possibilidade de procriação, em idades menos sugeridas, mas em que já se mexe na sexualidade, fez uma activação de marca que metia bolas de pilates, talochadas no rabo alheio, mas de protecção posta – tudo com roupas vestidas e com um contador de traulitadas, para ver os mais ágeis na arte do coito, ou as mais lestas na experimentação da posição incomum para si – está, agora, a ser crucificada por não ter criatividade e por pôr a nu um país que não é o deles, em que não gostavam que os filhos (ou futuros filhos) vivessem.

Talvez preferissem uma palestra sobre as formas como não devemos fazer sexo, para não ir contra a epístola dos brandos costumes, do país onde se batia nas mulheres e onde se quer que elas satisfaçam os homens, mas sem demonstração pública de afecto ou desejo, porque isso está destinado às meninas da má vida. Gostar de homens e mulheres é feio. Aliás, não é, apenas não se pode dizer porque é uma pouca-vergonha e não devemos permitir isso nunca. Que se celebre a vida nas paredes do quarto, mas que sejamos sisudos no quotidiano onde a existência acontece e bacocamente diplomáticos e maldizentes nas redes-sociais. Se fizeram, está mal; se vão fazer, é que nem pensem; se não fizeram, é porque já se faz nos Estados Unidos ou na Alemanha – esses países de desavergonhados e ricos, mas onde nós não queríamos viver nem experimentar nada. Credo!

Em suma, é triste que a nossa boa-disposição tenha ido pela mesma caneja em que escorreu toda a riqueza que nunca tivemos. Podíamos salvar a salva de prata da alegria e a incomplexidade de só querermos ser felizes e estarmos de bem com a vida, mas não, que parece mal e não é fixe nas redes-sociais. Fixe é ser do contra e, se possível, que o contra seja fazer juízos de valor de toda gente, porque todos temos uma vizinha que é uma badalhoca, uma prima que emigrou e se meteu na má vida e um conhecido que é corrupto e mal-intencionado. No nosso quarto é que não se passa nada, porque só há a vida de um robot que não quer cometer erros no Facebook, nem sujeitar-se muito à opinião alheia. Mais vale a camisa fechada até ao pescoço e o perfil só para amigos, que assim controla-se a vidinha. E a vidinha é muito melhor que a vida!

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