A doença do medo


Doença do Medo

A modéstia, tão pomposa nas corriqueirices de vidas amordaçadas, é só uma segurança da cobardia. Ajustar as nossas vontades às nossas crenças é apagar os públicos e vivermos para nós.

Não é fácil anular as expectativas quando procuramos as maiores certezas de que não falharemos. Acertar é bom, mas não falhar é mais cómodo. Então, raras vezes dizemos que não sabemos porque não sabemos. Dizemos antes, isso sim, que temos uma ideia quando não sabemos e que somos mais ou menos quando temos a certeza que somos bons. Defendemo-nos. Passamos a vida a defendermo-nos.

Essas defesas, como paredões em praias desabrigadas, servem para baixarmos a fasquia e lidarmos melhor com as asseverações alheias que, tantas vezes, vêm de desconhecidos que valem tanto na crítica como a nossa própria consciência. Aliás, são talvez eles a nossa própria consciência. Criamo-la em função da manada e desligamos o interruptor da nossa criatividade. É melhor ser um em muitos do que ser o falhado, que falha (e falha e falha!) até acertar.

É mais confortável viver assim, sem dúvida, porque nos sentimos sempre mais protegidos e acompanhados. Mas essa sensação, sacana, não é mais do que uma falsa comodidade, que nos deixa presos ao sofá de molas soltas, quando temos um colchão de água, desafiante, com espelhos no tecto, do outro lado da porta. Mas a coragem é a crítica, a capacidade de ouvi-la e manter impassível a nossa crença – só ouvindo o que, realmente, merece ser ouvido.

A imodéstia, que é o mesmo que dizer coragem, quando trata assuntos que realmente dominamos, traz a responsabilidade e, pior, a responsabilização. E isso é que assusta! Há pessoas que dizem que temem apenas a morte e a doença, mas isso é mentira. A maioria teme a necessidade da escolha, a obrigação de decidir e a responsabilidade de assumir o erro, que só mais tarde poderá valer uma vitória. A doença é só uma fatalidade.

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