Mundo de espelhos

Mundo de espelhos

Vivemos rodeados de espelhos. Refletimos o nosso eu nos outros, projectamos para nós o eu que outros são e vivemos nesta redoma de acontecimentos subterfugiados de inverdade.

Não sabemos, na verdade, quem somos, porque numas relações somos o elo dominante, o que escolhe os tempos, o que pauta as acelerações e diminui os ritmos. Noutras, consciente ou inconsciente, tornamo-nos o elemento que é dominado e se deixa de levar. Tendemos a acreditar que podemos contrariar isso, que somos mais donos do nosso mundo do que qualquer um poderá ser – ou não fossemos todos potenciais conselheiros de categoria sublime, excelsa -, mas, sendo honestos, percebemos que quando a nossa vontade que dê certo é tão grande como o sol perdemos o controlo das coisas. Podemos lamentar-nos por isso, ou vivermos gratos por nunca sermos os mesmos. Eu vivo grato por nunca ser o mesmo.

Canso-me de mim com a mesma facilidade com que me canso dos outros, mas não por não gostar de mim. Apenas por querer ser coisas diferentes, para viver coisas diferentes. E ser diferente não é metamorfosear a cada dia os meus gostos, as minhas vontades ou os meus objectivos, é sentir apenas com a pureza de quem nunca antes o sentiu. Deixar de ser o rapaz que tem um passado, para ser o rapaz que tem um presente, que se deixa encantar pelo conhecimento do mundo, como se ele não fosse um reconhecimento. Termos medo de sofrer é o mesmo que termos medo de viver. Termos defesas para as perdas é o mesmo que abdicarmos do tempo que temos para viver. Nada disto é fácil. Mas não podemos partir os espelhos.

Eu não quero partir os espelhos, só não me quero deixar dominar por eles. Quero encantar-me, perder-me nos labirintos que as suas latitudes de reflexos criam, mas nunca perder o norte do que sou. Que é nada. Sou sempre uma construção de mim mesmo, à procura de coisas novas, que me façam sentir coisas novas. E, não raras vezes, essas coisas novas são coisas repetidas, só que sentidas de forma diferente. Refletimos os nossos anseios, para criarmos as nossas vontades.

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