O tempo que não usamos

O tempo que não usamos

O tempo apareceu para os nossos dias como a Peste Negra para a Baixa Idade Média, em pleno século XIV. Deixámos de conseguir relativizá-lo. E, relativizá-lo, não é desprezá-lo. Jamais houve pessoa alguma que conseguisse ser feliz com a ajuda do desprezo. O esquecimento, o desapego, o sossego, podem sempre ser aliados do sucesso, o desprezo não. O desprezo mata.

Mata-nos a nós em primeiro lugar. Mata-nos a criatividade, a energia, o fulgor, a vontade de vencer, porque nos concentra a atenção no alheio que tentamos dominar. O domínio do alheio é impossível, no máximo alcançamos o controlo e dominamos o tempo dessa estada. Quero estar, fico; quero partir, vou. E essa liberdade é que deveríamos transportar para o tempo. Não para o que nos resta, mas para o que temos agora. O que não conseguimos relativizar.

Se é bom, é rápido demais; se é mau, é lento em demasia e tem descomedidos talhos de infinito. Nunca é bom. No máximo, assim-assim; nunca bom. Porque desprezamos o tempo, como desprezamos o inverno que aparece nas noites de verão. Pode ajudar na rega, apoiar nos cultivos, mas a nós, seres únicos nesta existência povoada de ajuizadores alheios, será sempre uma chuva que nos estraga a noctívaga companhia dos amigos ou da mulher que nos rouba o coração. Não gostamos do inverno do verão porque não o podemos prever. Já devíamos estar avisados que pode chegar numa noite ou manhã qualquer, mas nunca podemos adivinhar o dia exacto para nos precavermos e nos pormos de trombas logo desde início – a sofrer com a antecedência devida, de pelo menos três dias. Não gostamos de sofrer só na hora.

Queríamos mais, mas nem sabemos o que fazer com o que temos. Se ficamos desempregados, ele é um problema; se estamos empregados, um problema ele é. O tempo é a Peste dos nossos dias e a vacina teima em não chegar. Eu beliscar-me-ia a cada dia, como forma de provar que o uso. Se dói, é porque estou vivo. E, se estou vivo, é porque tenho tempo. Há que aproveitá-lo, seja de mancheia seja devagarinho. Interessa é aproveitá-lo e não desprezá-lo. Desprezá-lo, ou tentar desprezá-lo, é amarrar-nos ao pensamento dele. E só somos livres para amar o tempo – ou uma pessoa – quando sentimos e sabemos que não podemos dominá-lo, mas podemos apreciá-lo, mimá-lo e tratá-lo. Não importa o tempo, importa que seja bom.

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