O que eu chamo de Literatura

literatura

Nem sempre a literatura é um exercício de aculturação, por vezes, é apenas um prazer ou um acumular de cargas – negativas ou positivas -, que nos faz viver.

Não procuro nos livros toda a sabedoria que não tenho. Acasos, procuro somente a leveza que me leve a passear por mundos que não conheço. Por mais que viaje, que encontro locais inóspitos que me preenchem a adrenalina do descobrimento, nunca serei capaz de viajar na cabeça de outras pessoas. Já houve – e há – pessoas que conheço melhor, mas, mesmo nessas, há espaços que apenas a elas pertencem. Esses, os espaços ermos do nosso conhecimento, são os que nos fascinam. Que nos levam a sonhar quando não conhecemos e que nos fazem sorrir quando descobrimos.

Pessoa alguma se veste só de preceitos de qualidade, tem sempre um recanto que, aparentemente, nos defrauda. Ou não gosta do Benfica, ou deixa o tampo da sanita levantado, ou é tão arrumado como um domingo de romaria, mas nada disso nos rouba o prazer que é estar ao lado daquela pessoa. Aprende-se a gostar do que não se gosta, porque não se isolam partes para se construir um todo; unem-se. E eu uno o prazer que tenho na leitura ao prazer que encontro em viajar em vidas que não são minhas. Porém, cansam-me as aparentes ditaduras do certo e errado. Nos romances, há os bons e os maus, há os de que se gosta e os de que não se gosta, e há, também, os que não são uma coisa nem outra. O Chagas Freitas, o José Rodrigues dos Santos, ou outros que tal, poetizam o lirismo das redes-sociais para que se crie uma certa (in)conformidade, a que se chamará história. Não há história. Ou melhor, há história, mas só história, como eu contar que uma vez atirei três tremoços ao ar e os engoli duma vez. Não há talho de verosimilhança nas personagens, são feitas de textura de vento. Sopra-se e desmoronam-se. Os diálogos não dão lugar a imagens dos traços de temperamento, dão lugar a aglomerados de palavras que preenchem espaços vazios ou proporcionam a possibilidade ao autor (José Rodrigues dos Santos) de mostrar todo o seu esplendor do conhecimento cultural, que pode ir da astrologia à maminha da empregada de mesa. E os livros não são isso, ao menos os romances.

Aliás, o erro que se comete, quanto a mim, é catalogar livros como livros. Há coisas que são empilhamentos de folhas, há cadernos de ensinamentos que vêm em capas rígidas e com lombada – que são os chamados livros técnicos -, e há a literatura. Que não nos ensina a astrologia, não nos diz a definição do pi, mas faz-nos viajar e ensina-nos a arte de viver, pelos sentimentos de outros.

O romance que ando a ler é este (Autismo, de Valério Romão) e estou a gostar muito. Até agora, não me ensinou nada do que é médico em relação ao Autismo, mas ensinou-me tudo – porque eu nada sabia – do que é viver e criar alguém com autismo. E isso é o que eu chamo literatura!

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