O presente

O presente

 

Jorge Luis Borges dizia que todas as criaturas são imortais, excepto os homens; os que na morte colocam fé, sem dela se abstraírem. Eu gosto de me abstrair das coisas. Gosto da lembrança subcutânea de momentos incríveis.

Quando exercito a mente, num périplo por viagens idas, por momentos que ficam, furam-me recordações de ápices desconexos. Lembro-me de estar em Paris e recordar mais um velho senhor, elegante, a tocar guitarra e a cantar blues, em Montmartre, do que a vista magnificente da torre. Lembro-me de em Barcelona espantar-me tanto com a vista matinal, enublada, a partir do Museu Nacional d’Art de Catalunya como com o passeio pela rambla principal. Lembro-me, também, de ir a vários concertos num só dia e de me encantar mais com a paragem numa esplanada, de rabo alapado na relva a beber uma cerveja, do que com os acordes fantásticos duma dais quaisquer bandas que vi.

Tudo isto acontece porque, mais uma vez, Jorge Luis Borges está certo: “O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe”. E não existe mesmo, quando o queremos tactear. Raras são vezes em que a cabeça está desunida do passado e separada do futuro. O imediato quase sempre nos rouba a cabeça do agora. É a melhor hora para pensar no que vem a seguir, para memorar no que já foi feito e para apontar ao que se quer fazer. Como quando estamos de frente para a Torre Eiffel e queremos, obrigatoriamente, marcá-la em detalhe, qual raio-x, porque pertencia aos nossos sonhos do passado. Se pensamos que não queremos esquecer, esquecemos. É assim. Porém, se não queremos saber, se estamos só lá, sem estar a tentar medir os centímetros do presente, ele fica. É o presente que se torna passado, usando a pele dos irrepetíveis momentos. Como eu tive em Montmartre, no Museu Nacional d’Art de Catalunya, naquele jardim a beber uma cerveja ou nesta foto que tirei virado para o Tejo, também a beber uma cerveja. O presente é o exacto momento em que não existe passado nem futuro. E a linearidade disso é a complexidade de todos os que querem viver tudo, agora.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s