Três partes dum mesmo texto

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Procurei uma frase que fizesse jus ao que sinto, mas compreendi que nada consegue almejar a irrealidade sincera do que sentimos. As coisas verdadeiras não têm verdade. É como o mar, que quando é azul, verdadeiramente azul, como deve ser, comparamo-lo ao céu. Uma coisa, quando é tanto uma coisa, é necessário compará-la a outra. Saímos donde estamos. O amor, a saudade, o desvio, ou que queiramos chamar, também é assim. Precisamos sair, para um dia voltar. Nem que um dia seja na hora.

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Lembro-me bem dum jogo em menino, quando ainda praticava desporto, em que uma vitória era fundamental para nós e o adversário não apareceu. Que vazio! O objectivo foi alcançado e quase tínhamos vergonha disso. Não tínhamos culpa nenhuma, claro, estávamos lá todos a horas, equipados e motivados, o adversário é que não apareceu. Mas não nos podíamos vangloriar do feito e ninguém quer vencer uma corrida onde mais ninguém participa. Já a corrida em que todos saem da partida e acabam na meta é o sonho de qualquer um. O amor é igual. Tem que ter a dose de adrenalina, a incerteza, a dúvida e até a mágoa, a mágoa que se transforma em beijos.

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A inspiração aparece nos momentos em que a cabeça se apaga – ao contrário do que se pensa. De cabeça cheia, ninguém escreve; tem ideias. E ideias e textos são coisas diferentes. O coração pode doer, pois é sinal que existe, mas o pensamento só deve ser traduzido quando o próprio pensamento se acaba. Doutro modo, o parágrafo final, o que assenta o término num ponto que não terá parágrafo, jamais terá um fim. Uma ideia ou pensamento agitado é um produto inacabado. Fruto da nossa cabeça, criação da nossa agonia ou entusiasmo, mas sempre inacabado. Os blocos servem para anotar as ideias, não para escrever os pensamentos. Há é ideias que ocupam livros. Mas isso é outra coisa. E isto, este texto, é o resultado dum apontamento, mas ainda é uma ideia. É um bloco a prolongar-se num blogue, é um texto que não acaba e é uma saudade que ainda estou a ruminar. De quê? De quem? De onde?

De tudo o que um texto não pode acabar, por ainda não ser um texto.

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