Um casal normal

Um casal normal

Deitaram-se como um casal normal: ele para a esquerda e ela para a direita. Deram um beijinho de boa-noite, disseram que se amavam e partiram para os seus sonhos.

A Dulce não se desligava da matéria que tinha para remediar no dia a seguir, toda presa às frivolidades de umas colegas de trabalho que não lhe faziam a vida fácil. O Nuno, por sua vez, pensava naquela imagem de uma mulher de costas com uma planície à frente. Não se sentia atraído por ela, pois nem a vira, mas não tirava a imagem daquela mulher da cabeça. Era tudo o que ele desejava: uma imensidão. Aquela imensidão, que parece vazia para os vazios e repleta para os repletos, significava tudo o que ele queria. O mundo.

– Oh Dulce, olha lá.

– Diz.

– Esquece.

A Dulce mergulhou novamente nas suas apoquentações: o Gustavinho que estava mal na escola; o marido que lhe dava para aquelas coisas de deixar as frases a meio; a Leonor e a Rosabela que eram da pior rés que ela conhecia. Já sabia que vinha mais um dia daqueles e era quase meia-noite e ela sem dormir. E o Nuno a fazer um barulho que não se aguentava a respirar. Ela sempre a avisá-lo para deixar de fumar e ele sem ligar nenhuma. Quem lhe dera que ele, ao menos, a convidasse para uma viagem. Mas nada.

– Oh Dulce…

– Se é para me mandares calar a seguir ou para dizeres que não é nada, mais vale nem continuares.

– Está bem.

E o Nuno lá ficou a viajar naquela imagem da mulher, de costas, com a planície pela frente. Pensou como seria bom pegar na sua Dulce e fugir uns dias, mas não disse. Ela iria resmungar ou apontar uma série de problemas. Ele estava acabrunhado pela vida na fábrica e preso pelas contingências do dia-a-dia, mas ela era capaz de ter razão. O dinheiro iria fazer falta para outras coisas e o Gustavinho não se andava a portar nada bem. Era melhor calar-se e adormecer, que já era quase meia-noite.

Ao outro dia acordaram, e continuavam a ser um casal normal. Ela estava a pôr a mesa e ele a fazer as torradas. Falaram de como o tempo estava esquisito.

– Agasalha-te, filho, que hoje está para chuva – disse a Dulce.

– É verdade, Gustavo. Faz o que a tua mãe disse – corroborou o Nuno.

Arrancou cada um para o seu lado e deixaram os bilhetes de avião no pensamento. Conheciam-se bem.

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