O disco do Nick Cave

O disco do Nick CavePassava tantas horas a ouvi-la. Falava de música, abordava grandes livros, tocava assuntos da política ao de leve, discursava sobre tudo. E eu olhava-a, embasbacado como quando a tarde se punha no pátio da fábrica.

Foi assim durante semanas. Ela chegava de manhã, bem antes dos outros, começava a organizar os papelinhos e os slides todos, para nos dar formação. Nunca gostei das formações da empresa, que são sempre chatas. Mas daquela gostava. Ela era entusiasmante a falar – e via-se que sabia do que falava. Aliás, até me custava voltar a casa e saber que não ia ter com quem falar daquelas coisas. Sentia-me aborrecido, só à espera que chegasse o outro dia. Disse à minha mulher que estava a ser mesmo interessante a formação. E ela só estranhou quando passei a dizer todos os dias.

– Se achas que é agora que vais ser doutor estás enganado, isso só te vai dar um diploma para encaixilhares nos caixotes que temos nos arrumos.

Eu nem lhe ligava, ela não sabia como era bom sentir-me mais inteligente. Eu só a ouvia, nas suas saias curtas e nos seus casacos aprumados, mas sentia-me inteligente. Era isso que era especial nela. Fazia-me inteligente, só de ouvi-la.

– Sabe, Adolfo, você é uma óptima companhia.

Dizia-me ela e eu ficava todo contente, com o meu dia feito. Ia tirar boa nota na formação, o meu patrão havia de dar-me os parabéns e a minha mulher nem se aperceber, mas eu ficava contente com aquilo. Com as palavras dela. Na verdade, da formação já nem me lembrava. Era sobre higiene no trabalho, mas eu como sempre calcei luvas nem precisava daquilo. Gostava era das horas de almoço, que ela se sentava ao meu lado e eu ouvia-a a falar de tudo. Música, literatura e política, era o que ela falava mais. E era o que eu gostava mais de ouvir. Ela completava-me.

Mas, um dia, acabou a formação e eu fiquei mais triste. As luvas eu já sabia que tinha que calçar, faltava-me ouvir falar de música, livros e política. Os dias de trabalho amontoavam-se, costumeiros, e as noites em casa também. A minha mulher andava numa formação. Aliás, foi aí que eu recuperei o meu casamento, quando, durante essa formação dela, um dia me chega a casa e diz:

– Temos que pôr um disco de Nick Cave a tocar.

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