Ser posto em causa

Ser Posto em Causa

Há anos que procuro aprender a ver. Tenho os olhos baços, demasiado baços, pela necessidade constante de fazer a vida acontecer. Tenho receio que ela acabe, não me sinto preparado para vê-la partir, portanto debruço-me sempre sobre ela de forma exagerada.

Para uns, serei louco, normal, ou coitadito; para mim, serei sempre algo que não tem explicação. Quanto mais tento compreender-me, mais me perco. E essa procura de me tentar compreender é que me embacia o olhar. Preciso de pessoas que me coloquem em causa. É estranho, mas preciso. Não gosto de ser bajulado, gosto de ser reconhecido. Aquece-me a alma a sensação de que não recebi um elogio: conquistei um gabo.

Sou sofredor, ao contrário do que os olhos alheios conseguem ver. Importo-me pouco com o que dizem, faço muito do que me apetece, mas entrego-me sempre a sentenças que raramente têm juiz. Aliás, têm, mas é o mais parcial possível: eu mesmo.

Sou feliz com tudo o que tenho, mas insatisfeito com o tanto que me falta ter. E o que me falta ter? São perguntas sem resposta, como esta, que me fazem viajar vezes sem conta por pensamentos confusos. Olho, acasos, a forma como me miram e penso: gostava de ser o que vêem em mim. Mas não sou, nunca serei e jamais o ambiciono ser. Não quero narcisismos, por muito que em casos eles sejam precisos. Quero situações, vidas, oportunidades, pessoas, que me ponham em causa. Eu gosto de estar em causa. Uma lágrima sabe-me tão bem como um sorriso, sendo sincera. Choro com dores alheias, pensando em dores minhas; sorrio com vitórias de outros, pensando em objectivos meus. E gosto de ser assim: sonhador e confuso.

No dia em que eu me decidir na totalidade, estarei o mais próximo possível de tudo o que não desejo ser. Mais um. É isso que eu não quero ser: mais um. Mas não aos olhos dos outros, aos meus. Preciso de sentir medo para me desafiar. Se não sentir medo, estou a pisar terreno onde já calquei uvas. E isso não quero. Quero ser posto em causa, quero conquistar de novo, mesmo que nunca tenha conquistado antes. Quero ser coisas. E coisas é o que me descreve. É vago, mas amplo. E o caminho para mim ter que ser amplo, desconhecido, mas medido e sentido. Eu quero sentir a vida. E os olhos dos outros, apenas ditam o que quero ver com os meus. Preciso ser posto em causa, apenas porque eu me quero pôr em causa. Agora, amanhã e sempre. Não é saudável, eu sei, mas é desafiante. E a vida não é para ser saudável, é para ser arriscada. Se fosse para ser saudável, não morreríamos no fim. Quero ser posto em causa. Por mim, pela vida que desejo e pelo que sonho levar dela.

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