Política do Charlie Hebdo e cães abandonados

Charlie Hebdo - Política

Em Paris, a cidade luz que ontem tentaram apagar, hoje nasceu mais um dia cinzento. Os acontecimentos do Charlie Hebdo já rogavam um pesar rugoso, que ainda se alastrou mais hoje com um tiroteio logo ao começo dia. As manhãs estão a ser sangrentas, sejam ou não movidas pelas mesmas facções.

Eu não sou um entendido das matérias religiosas, pela minha descrença em relação a cultos. Compreendam, tenho fé, acredito piamente que todos devemos ter fé, apenas não creio que devamos medir os nossos credos pelas regras que nos ditam. Acho que o extremar, como em tudo, é malicioso. Mas vivemos numa sociedade que, inconscientemente, apela aos extremismos. Não podemos ser donos de personalidades fortes, se não atacarmos um lado para comprovar o nosso; não podemos ser a favor de algo, senão estivermos contra outra coisa; não podemos ser demasiado centristas (sem conotação política), senão só estaremos a tentar agradar a deus e a diabo. E vamos vivendo em saltos de um extremo para o outro.

Claro que nenhum destes extremos acima referidos se pode comparar aos que ontem assistimos, mas podem levar-nos a outros males que não estamos a idear. A Le Pen, como sabemos, ganha terreno em França. Imaginam quanto mais terá ganho com as ocorrências de ontem?

Ela, certamente, esfregou as mãos, por muito que possa ter sentido a dor de ver pessoas serem assassinadas daquela forma. A política não se separa da tragédia, conforme a nossa caríssima Ana Gomes, eurodeputada do PS, fez questão de lembrar no seu Twitter. Mas há algo em que não cogitam: o mal que se passa no lado de lá, no Médio Oriente, é o que passa para cá. Xiitas e Sunitas nunca se vão entender, entre outros grupos dispersos de uma religião que tem tanto de confuso, com os primos que deviam ter liderado, por testamento, e não lideraram, como de sangrento.

Mas o que podemos fazer? Levantar uma guerra contra eles? Usar as mesmas armas que eles usam para atacar-nos? Não creio. Acho, antes, que devemos ser todos um pouco de Charlie Hebdo. Mas temos que ser Charlie Hebdo na política. E, garanto-vos, ser Charlie Hebdo na política não é simplesmente expulsá-los, isso seria apenas fazer o jogo que eu fazia com a minha mãe: esconder os brinquedos debaixo da cama, para ela acreditar que tudo estava arrumado.

Sermos Charlie Hebdo na política é termos coragem de os afrontar, esquecendo petróleos e armamentos, e deixarmos de ser uma Europa e um Mundo, que tenta esquecer a existência deles, na esperança que eles próprios se matem uns aos outros. No fundo, a política mundial, perante o Alcorão, deve ser o que eu sou perante um cão raivoso que me assusta. Se correr, ele vai correr mais atrás de mim; se mostrar medo, ele vai atacar-me na hora; mas, se for indiferente, ele vai ficar confuso e, em certa medida, bloqueado.

A política europeia e mundial tem que passar a ser o transeunte que caminha, sem mostrar receio do cão abandonado e com raiva. Muitas vezes, ele só quer atenção e carinho. Mas, se vivermos toldados pelo medo, a procurar sucessivamente atravessar a estrada, só lhe estaremos a dar mais motivos para nos atacar.

E, para finalizar, deixo uma nota, que espero compreendam: a generalidade dos cães abandonados não são raivosos, esses são uma minoria. A maioria dos cães abandonados são dóceis, sofridos e só procuram abrigo atrás dos mais fortes.

One thought on “Política do Charlie Hebdo e cães abandonados

  1. Pingback: Paris em Silêncio | Boas Notícias?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s