Cabeça no presente, olhos no futuro

Cabeça no presente, olhos no futuro

Usando uma analogia futebolística: a passagem dos escalões de formação para a equipa principal acarreta uma série de dificuldades, que se resolvem com um período de adaptação ou com uma maturidade e talento inatos. No Marketing, ou em qualquer outra profissão, acontece o mesmo.

A minha passagem do contexto académico para uma realidade de mercado, inserido numa PME, foi, primeiro que tudo, entusiasmante, mas também decepcionante. O IPAM dá-nos o que mais nenhuma universidade nos dá: uma enorme aproximação à realidade dos mercados e às vivências quotidianas de uma empresa. Mas, ainda assim, não nos pode dar o que só o tempo dará: experiência.

Desse modo, os meus primeiros meses foram desafiantes. Cheguei a uma empresa sem qualquer tipo de base de gestão de marketing, em que necessitei de criar uma identidade, primeiro visual, para a marca. Os lugares onde era necessário distribuir o produto e a informação, a coerência de comunicação necessária em todos eles, o deixar claro a toda equipa de trabalho o que nos diferenciava, para nos posicionarmos com uma missão e visão claramente definidas.

Tudo isto parece a base de um qualquer relatório que produzimos para uma cadeira, mas a verdade é que engloba outros factores que, até chegarmos ao trabalho, não ideamos. Por exemplo, a base de tudo, para um conhecimento real dos resultados das nossas acções, é algo tão básico como métricas. E por métricas estou a referir-me aos princípios mais básicos de controlo, como são o número de contactos recebidos, ou o número de orçamentos enviados, mas a verdade é que nem sempre existe predisposição imediata para isso. Compreendamos que essas barreiras não surgem por má vontade ou desleixo das pessoas, surgem por uma falta de hábito, que implica uma mudança de rotinas. Essa mudança leva tempo, mas não foi para mim uma derrota trabalhar meses a fio numa tarefa, aparentemente, insignificante. Foi o contrário.

É importante estarmos disponíveis para laborarmos todos os detalhes e os compreendermos de uma forma mais ampla do que eles parecem no momento. Eu não lutei para que fizessem tracinhos numa folha quando o telefone tocava, lutei para que compreendessem que cada tracinho nos diria onde estávamos a falhar e a acertar e que poderiam ter peso na estabilidade do futuro profissional deles. E isto, estou em crer, é o fundamental para conseguirmos manter a motivação no nosso trabalho.

Obviamente, toda esta minha experiência poderá estar extremada pela realidade que encontrei (uma empresa sem quadros superiores), mas são coisas que acontecem, acreditem. Já tive a possibilidade de prestar serviços, ao nível da criação de conteúdos, em empresas do sector turístico ou de Facebook Marketing, já tive a oportunidade de me expressar em público em alguns colóquios e em todas essas ocasiões cheguei a uma conclusão: os entraves ao nosso trabalho estarão sempre nos hábitos e receios. Claro que os budgets nos ajudam e me têm permitido participações feiras de negócio ou publicidades massificadas importantes para a empresa, mas, actualmente, temos ao dispor um infindável número de opções de baixo custo que permitem promover a notoriedade da marca ou alicerçá-la ao nível comercial, o que não temos é um chip que permita que, no imediato, as pessoas vejam algo arrojado como uma saída de futuro.

Existe no nosso país uma vontade muito enraizada, quando toca a negócios de pequena dimensão, mas também em casos de negócios maiores, de procurar seguir por caminhos já antes trilhados que, à partida, são sinónimo de sucesso. Quando cheguei à empresa, uma empresa de peças de automóvel usadas, pedi ao designer subcontratado que realizasse, em conjunto comigo, um branding em que fosse possível a descolagem dos carros e, ao mesmo tempo, fosse colorido. O resultado chegou e todos duvidaram, ninguém queria crer que aquilo, cheio de verdes e cores diversas, poderia ser a imagem de uma empresa que vende peças automóvel usadas e é associada ao termo ‘sucata’ (tão depreciativo e bruto). Mas a verdade é que, quatro anos volvidos, foi exactamente esse arrojo, em junção com o nosso posicionamento e produto, que nos colocou no sector como uma referência. O verde só queria demonstrar que, reutilizando, somos amigos do ambiente. Como vêem, o princípio era básico.

Por isso, para concluir, digo-vos: não deixem que as hesitações alheias inibam as vossas crenças. Cada não que vos é dito é uma nova possibilidade de procurarem (e estudarem) mais fundamentos para as vossas ideias. Se eu tivesse desistido, quando não me punham risquinhos numa folha de papel, se calhar não continuava na empresa, não teria tido possibilidade de colaborar pontualmente com outras empresas, não teria tido a coragem de me tornar cronista em alguns jornais, muito menos de ter editado um livro com o IPAM.

Não são áreas que se toquem, a escrita é apenas a minha paixão, mas só quando conseguimos acreditar em nós, no trabalho ou na vida, temos a capacidade de lutar pelos nossos sonhos. Eu lutei. Ainda não realizei nem um terço deles, mas tenho uma vida pela frente e a certeza que já realizei alguns a dar-me força.

Não desistam! As dificuldades, quando acreditam no vosso trabalho, são apenas os degraus para chegar ao cimo. Cansam, mas enrijecem.

 

Artigo redigido para a revista digital IPAM INTERACTION, em Outubro de 2014 (páginas 17, 18 e 19) 

Link revista:        http://issuu.com/ipamaveiro/docs/ipamnews_6

Link de vídeo em contexto trabalho: http://vimeo.com/110870233

Site da empresa: http://www.jesusbaptista.com/pecas-auto-usadas/

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