A carta em silêncio

A carta em silêncio

Não é no vagar que gasto nas palavras que demonstro o amor, é na resiliência dos silêncios. Shiu. As árvores a rangerem, o vento a soprar como uma respiração incontida de uma noite de inverno.

O teu corpo pousado no meu. Lado a lado, com a cabeça junto do meu batimento. Sinto-te as palavras como silêncios e os cabelos como condóis que me movem os poros da pele. Estremeço, sempre que as palavras não foram ditas. Trepo vida ao compasso dos silêncios que vou guardando e partilhando. Partilhar contigo um silêncio é fazer crescer em nós o amor. As palavras que não se dizem, os silêncios que se oferecem. Shiu. Deixa-te estar no encosto do meu peito e ouve as minhas palavras, ritmadas pelo meu batimento. Pum, pum. São sinceras, apenas desditas pelo tempo que galopeia pelas encostas da vida, como um cavalo solto.

Ouço Eugénio de Andrade nos meus pensamentos. Queria tratar-te como ele trata as palavras: sem temor e com carícia. Tanta ternura. É bonito ver como as palavras dele deslizam, na folha, como uma aragem que estremece as plantas. É uma natureza que nasce na ponta dos dedos de uma pessoa que não nasceu para morrer. Como ele escrevia, não nasceu para morrer. Talvez os amores também assim o sejam: nascidos para nunca morrer.

Há amores e amores, pessoas e pessoas, mas o que mais vingam são os que respeitam o silêncio. O silêncio dito e o silêncio não dito. Agora, dorme. Descansa no meu peito. Shiu.

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