A decisão é nossa

A decisão é nossa

Os dias esvaem-se nas goteiras de chuva que caem no estore, na rua, nas pessoas. Não é fácil a entrada do inverno em pessoas do verão.

Não sou uma pessoa de verão pela tez morena, ou pelo gosto de andar de calções e havaianas, por muito que também aprecie. Sou uma pessoa de verão pelo aflorar de entusiasmos desmesurados, pela vontade louca de fazer história, nem que seja a história instantânea de um momento que nos marca. Gosto de viver. Não gosto de intervalos. Sei que eles fazem falta, que são eles que nos englobam do prazer maior de sentir tudo o resto, o êxtase, com mais veemência, mas não me convencem.

Preciso das borboletas.

Sinto muita necessidade disso, do desassossego de não saber se vai dar tudo certo, da vontade de estar na montra do certo ou do errado, com as mãos expostas para o aplauso ou para o arremesso dos frutos. Sou ansioso. Eu sei, sou ansioso, poucas são as coisas que me bastam. Labuto e labuto por mais, tantas vezes cometendo o erro de não estar a aproveitar os intervalos. A minha mãe nasceu na Venezuela e o meu pai viveu no Brasil, não sei se são esses ares dos trópicos que me avassalam o interior. Nem eles sabem.

Sei lá, é como se o inverno me apagasse parte desse calor, como se os cachecóis me atafegassem a respiração e os casacos me condicionassem movimentos. Só quando chega o cansaço desmesurado é que sinto necessidade de parar. E isso não é saudável, rapta-me os momentos de contemplação, pura contemplação, como o olhar no vazio que nos mostra além do visível. Consigo ter esses momentos no meio da agitação, bem no seu fulcro, mas por breves instantes, para logo regressar ao redemoinho que me catapulta para a tão grande inquietação que me faz sentir que tudo vale a pena.

Não tenho grande controlo sobre mim, a verdade é essa. Gostava de parar mais, de não ter tantas necessidades e anseios, de não querer fazer tudo hoje, quando sei que o amanhã pode ficar vazio, mas não consigo ser assim. Quem me pode julgar?

O destino. O destino que eu vou fazendo e assumindo, o que eu vou escrevendo. Este texto é uma parte do meu destino, é uma libertação de coisas que me agitam nestes dias de inverno que conduzo do trabalho a casa e de casa ao trabalho. Faltam as pessoas na rua, os sorrisos no rosto, às peles à mostra e a vontade de mudar o mundo.

O inverno não é a chuva, é o desconsolo que deixamos que nos domine. Os britânicos também sorriem e a chuva cai o ano todo; os brasileiros também choram e o sol raia o ano todo. A decisão não é do tempo, é nossa.

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