Café e torrada

café e torrada

Não é que fosse estranho eu acordar, não era, desde sempre acordei. Naquela manhã, porém, era um acordar diferente.

O vento tilintava em todos metais soltos, perdidos pelo chão do meu jardim, e esse simples som era como um aviso. O vento também devia guiar-me.

Desde há meses, não há muito idos, que me guiava somente pelas minhas ideias, pelas minhas noções do que era o certo, do que era o acerto de tudo o que antes pior havia feito. Pus as calças de ganga, entalei a camisa. Não pensei. Que saudades eu tinha de não pensar.

Não somos perfeitos, nunca, isso é tão certo como a sentença de óbito que nos carimbam à nascença para anos à frente, mas passamos diferentes fases da nossa vida, pensamos muito nelas, quando da nossa consciência somos donos, e acabamos a ponderar demasiado nessa perfeição. Raras são vezes que é por nós próprios que nos obrigamos a essa procura de perfeição, na maioria dos casos tem mulher ou homem ao caminho. Não é por erro nosso, ou desleixo para connosco, por muito que também o possa ser, é apenas porque necessitamos de motivações. E, quando estamos embrenhados na nossa rotina como uma fêvera no pão ralado, temos mais dificuldade de encontrar essa motivação.

O amor, na perda e na conquista, é sempre a nossa maior motivação para tudo o que são mudanças. Na ausência dele, procuramos chegar ao que já fomos, eliminando os erros que no caminho deixámos. Queremos ser mais, mas como não existe ninguém em volta que nos confirme isso, sentimo-nos à deriva, à procura de algo incerto. Precisamos que seja aquela voz, sempre aquela voz, a dizer-nos: é isso. É tão simples, um reconhecimento basta-nos e motiva-nos. A conquista é diferente. Temos a certeza que queremos ser mais, o nosso jantar habitual de quinze euros, passa para o restaurante de trinta, que a multiplicar por dois será sessenta, sempre com a certeza que não haverá quem resista ao nosso encantamento no redor daquele glamour, que fazemos parecer que é o nosso habitat diário.

Mas há uma coisa que compreendemos mais à frente, quando essas névoas de mudança se diminuem. Não era a pessoa que tentava acertar todos os passos, errando mais, que encantaria. E o restaurante, as prendas, as pequenas mentirinhas para aumentarem as nossas verdades, são apenas um engodo do que encantou: nós.

Quando cheguei ao café, para tomar o pequeno-almoço, disse:

– Um café e uma torrada.

– Então e a nata? – perguntou-me ela.

– Pode ficar para outro cliente – comecei eu, desviando o olhar da vitrina -, hoje é isto que me apetece.

Ela seguiu o rumo dela, levando o meu pedido diferente de todos os dias. Começou a olhar-me mais amiúde, mas eu, indiferente, paguei a conta na outra ponta do balcão e fui para o trabalho. Não pensando que devia fazer maquinalmente as minhas tarefas, a fim de não errar, dei-me mais liberdade de fazer como eu achava certo.

Até que o dia terminou, comigo, em frente ao espelho, a lavar os dentes e a pensar: nem uma palavra de elogio do meu patrão, nem uma mensagem da rapariga do café, nada. E segui assim os meus dias, sem acerto, mas sem vontade de voltar a procurar a perfeição dentro de mim, forçando-a, em vez de criar ferramentas naturais que me levassem à aproximação dela. Achei que não tinha nada a perder. Podia não receber elogios, nem mensagens, mas sentia-me menos preocupado, menos pensador e mais capaz de fazer as coisas que eu imaginava como certas. Estava a acertar mais. Quando somos nós, há menos erros.

Meses passados, com a naturalidade de sempre, prendendo a camisa nas calças, tomo o café e como uma torrada em casa. Roubei a empregada, a belíssima empregada, para o aconchego dos meus lençóis. Afinal, ela também gosta de torradas. Sugeria as natas porque lhe davam menos trabalho.

PS – Foto de Bukowski meramente ilustrativa. 

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