As pessoas por detrás do que somos

As pessoas por detrás do que somos

Os grandes, os incríveis, os que marcam a história, pelo que são e pelo que foram, são os que fazem as coisas por si, pelo que acreditam ser a essência da sua existência e o motor da sua busca.

Essas são as pessoas que eu admiro e que a generalidade das pessoas também admira, mesmo que por vezes não compreendam o real motivo. Alguns admiram o Ronaldo porque ele é bom jogador, mas não compreendem que ele é bom, sim, mas não por jogar bem, é bom por ter desafios interiores, para com ele, não para com os outros; alguns admiram o Saramago, a beleza de tudo quanto escreveu, como um dia disseram: um grande escritor tem um bom livro, um excelente escritor tem uma obra-prima, o Saramago teve, pelo menos, oito obras-primas. Mas o que algumas pessoas não vêem, não compreendem, é que a escrita dele era pura de inquietação. Jamais escreveu o que as pessoas desejavam ler, sempre escreveu o que mexia com o seu interior, o que o impacientava e revoltava. E isso é que fascina as pessoas, mesmo que não o percebam no imediato.

Poderia prosseguir o rol de exemplos, indo à música ou à pintura, falando do entretenimento ou cinema, tanto faz. As pessoas que procuram, desauridas, reconhecimento, o veículo para encontrar a fama, não raras vezes o alcançam. Toda gente é vulnerável a receber o que desejava receber, mas isso desaparece no tempo como uma nuvem de fumo. Somos atacados pelas pessoas que nos elogiam na hora certa, que nos aparecem no momento de carência, mas raramente são elas que fazem história na nossa vida. Nas artes, nas profissões, na existência, é precisamente a mesma coisa.

Gostamos do imediato, mas admiramos e acabamos por reconhecer é o sincero, o que nasce do coração, o que é feito para libertar e não para agradar. Isso é que nos encanta. Leva mais tempo, corrói, arca dor, mas vale muito a pena. O silêncio do que acreditamos ser o correcto suplanta todas as dores do caminho. Um dia valerá a pena, pensa-se. Mas mesmo que não valha, para o que idealizámos, foi feito o que tinha que ser feito, o que o nosso coração achava certo e o que a nossa convicção acreditava.

O Fernando Pessoa foi reconhecido após a morte. Escreveu tudo o que a sua alma ordenava e guardou num baú. Publicou o suficiente para beber um tinto no Chiado ou comprar um fato, mas nunca negou as palavras que nasciam dentro de si.

O que não sabemos, maioritariamente, é que por detrás do que cada um cria dentro de si, fazendo-se especial, está sempre uma pessoa. Pode ser uma mãe, um pai, um amor, uma multidão, ou quem for. Mas está sempre lá alguém. Crescemos por nós, a partir de outros. Isso é a beleza da vida e o elixir dos eternos.

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