O sol do céu

Não era possível, um sol não se esconde assim. Não desaparece, não se desprega do céu.

Toda a vila não compreendia a ausência do sol, o constante dilúvio que lhes destruía os cultivos e, passo a passo, amarfanhava a disposição. Jamais um sol pode desaparecer do céu por tantos meses, afirmavam todos, convictos. Sentados no interior do café, bebendo cervejas, vinhos e brandys, findavam por deslembrar o infortúnio pouco tempo depois.

A vida na vila estava sustida, parada dentro das casas e agrilhoada nas conversas de café. Ninguém tinha vontade de saltar as vedações dos terrenos, ir dar de pastar ao gado ou arriscar lançar umas sementes. Não fazia sentido, a chover há três anos já não valia a pena. Todos estavam a finar, a perder os resultados do fruto da terra para o alimento, a verem as vontades desvanecerem-se à velocidade da chuva que praguejava nos estores e portadas. No fundo, há uns dois anos que ninguém vivia naquela vila, apenas existia a contemplação do que consideravam um esconjuro. Todos, excepto um.

Era o Roseiro, que em pequeno era zombeteado por ter espinhos. Mas, na idade adulta, não se contrafazia com a má sorte da vila. Todos os dias, pela manhã, com o cacarejar dos galos silenciado, saltava da cama e percorria os caminhos todos, levava o gado de toda a gente a alimentar-se, arriscava colocar as sementes, mesmo sabendo que poderiam não vingar, ia plantar a terras vizinhas, onde o sol espreitava.

No café, onde todos os homens se juntavam, não era bem visto.

– Qualquer dia dou uma marretada naquele Roseiro – dizia o Arlindo, já num tom alto.

– Também já não o posso ver – prosseguia o Machado -, tem-me arranjado problemas em casa. Tenho que ouvir a minha mulher a dizer que eu devia era olhar para o exemplo dele.

– Havemos de tratar disso.

Enfileirados pela ideia e sorvidos pela pinga, naquele dia, seguiram atrás do paradeiro do Roseiro. Encontraram-no sozinho debaixo de uma árvore, encharcado da chuva que não paráva e a pedir às vacas e bois que se alimentassem, que precisavam de alimento. O Arlindo e o Machado, valentões, seguiram à frente com mais três ou quatro comparsas em direcção a ele. Ao acercarem-se, embebidos na chuva que se misturava com os muitos litros de cerveja e vinho, aperceberam-se que o homem chorava. Pensaram dar-lhe logo umas valentes, abispá-lo de que estivesse quieto com aquilo que só fazia com que as mulheres os arreliassem. Mas, vendo a penúria em que o homem estava, e tendo sentimentos bons ainda envolvidos em toda aquela revolta com a chuva, perguntaram: que raio é que se passa, homem?

O Roseiro não conseguiu responder logo, olhou-os com uma indiferença que não relevava medo nem nada, só vazio.

– Um dia perdi outro sol, que também me iluminava. Este, o do céu, também desapareceu, mas eu não posso parar de trabalhar. Um dia ele vai voltar, eu sei que vai, e se eu tiver parado de trabalhar, depois não o saberei receber de volta. Quero estar preparado para o sol.

Os homens ficaram a olhá-lo, com a intelectualidade de duas rochas pousadas no monte. Nada daquilo lhes fez sentido, o moço estava doido. Pensaram, entre eles, que o melhor era não o abandonarem. Contaram às mulheres que o Roseiro havia tido um badagaio, que não estava bom das ideias e que iam ajudá-lo. Iam fazer-lhe a vontade de o acompanhar e conversarem com ele, para ver se o melhoravam.

E assim foi, durante muito tempo, cada vez mais, foram todos juntos acompanhá-lo. De repente, o gado voltou a dar mostras de poder aguentar as chuvas sucessivas, a terra, bem lavrada, de quando a quando dava um legume que parecia obra de milagre e eles sorriam entre eles, com a certeza que, mesmo chovendo, estavam a ser úteis. O Roseiro também abandonou as lágrimas, com a companhia granjeada, e era a fonte de entusiasmo para eles. Não ganhavam quase dinheiro, mas já conseguiam alimentos e não estavam mortos. Existiam, labutavam contra a funesta sentença que o céu lhes havia passado. O sol que faltava na vila, afinal, não era o do éter. Mas esse, um dia, também voltou. E todos estavam preparados para recebê-lo.

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