Parabéns, Mãe!

parabéns, mae

 

Hoje é o teu dia, a data em que o registo marca o teu nascimento. Não és de ligar a essas coisas, mas sempre ligando. Até nisso somos iguais, falsos fortes, desleixados inveterados, mas sempre com o coração a palpitar por reconhecimentos, por abraços que mais não reflectem que o amor. Somos românticos. Os três. Tu, o pai e eu.

Falhamos nas datas por natureza, como uma epidemia que nos alcançou a família e nos desmemoriou de tudo. Temos cábulas no frigorífico, deixamos recados na mesa, telefonamos vezes e vezes ao dia, mas nunca nos esquecemos do mais importante. O amor. O que nos une, o que deveria inundar o mundo como se fossemos as margens de um rio sereno que nos banha o olhar com a sua água cristalina e nos adormece os ouvidos com o seu zumbido de corrente. Aprendi tudo isto contigo. Não as palavras, que essas trouxeste-as da Venezuela, num espanhol que nunca dominei. Refiro-me à capacidade de observar a beleza escondida na banalidade, de atentar nos pequenos sopros que nos enchem a alma e o coração. Nunca esquecerei as férias que fazíamos ao sul, na praia, mas também os passeios de fim-de-semana, abundados pela natureza, por Espanha ou pelo Norte do nosso país, com o rádio sempre a tocar, tu a trauteares as músicas que não sabias as letras mas em que gostavas da batida, com o pai a dizer que as estradas andavam todas a ser mudadas. Naqueles instantes ainda não percebia bem a vida, como não a percebo agora e, possivelmente, nunca perceberei, mas a compreender que a existência terá sempre outro sabor quando é levada com um sorriso na cara. Tenho essas imagens da meninice: as piadas do pai; os teus sorrisos audíveis como o rio a chocar na maré que o leva; e eu feliz.

Os anos foram passando, tu sempre a fazer sacrifícios, como quando me levavas para o trabalho e a seguir, comigo ao colo, em passo acelerado, ainda ias tirar a carta. O pai a trabalhar fora, tu a derreteres lágrimas de saudade nos telefonemas de fim de dia, a explicar-me que a tristeza também pode ser alegria, que as saudades magoam mas fazem-nos crescer, fortalecer os laços que nasceram para serem infinitos. Os anos a passarem, alguns desgostos e perdas, roubaram-te parte da energia que me contagiava, mas, mesmo assim, a tua tarefa maior, a que mais desejavas, estava conseguida. Já havias transportado para mim tanta dessa nervura que faz sofrer, mas também conquista o mundo.

Ainda vais sofrer muito com esse teu modo de ser, Ricardo, eu sei porque fui igual. E nesse aviso eu compreendia a preocupação de mãe, contudo também reluzindo o orgulho de te veres perpetuada em parte de mim. Não querias que eu fosse perfeito, nunca quiseste, sempre pensaste que o melhor para mim era divertir-me. Dizias-te a ti que estavas mais velha, sem a paciência e energia de outros tempos, sempre comigo a perceber a inverdade das tuas palavras em relação à tua cabeça. Nunca me apresentaste decisões como certas, sempre me mostraste caminhos, os que conhecias, para dizer que uns eram melhores que outros, que eu já te havia magoado, a ti e ao pai, em algumas coisas, mas que não desistiam de mim, que sabiam que eu sou um mimado, que serei sempre, não perdendo algum do valor que vocês me deram. E eu, hoje, alguns anos volvidos, posso dizer-te que encontrei no pai a vontade e capacidade de me relacionar com todos, não deixando de lado a tua vontade de confrontar o mundo com o que são as nossas certezas. No vosso conjunto, compreendi que a personalidade forte pode não abraçar a arrogância e que a simpatia pode não ser amada da apatia. Como vocês aprendi a sentir-me grande, com a noção que quanto mais cresço mais longe fico dos objectivos seguintes.

Por isso, mãe, escolhi estas fotos. Numa o retrato do vosso amor, juntos, na outra nós os três, comigo a reflectir bem no rosto como me oferecem uma vida farta, e na maior, na colorida, a tua alegria de viver, o teu sorriso que me cativa como se eu tivesse para sempre aqueles três e quatro anos, em que te acompanhava no emprego e percebia os sacrifícios que fazias, sem saber que o eram sacrifícios.

Por tudo isto, mãe, quero desejar-te os parabéns, mas relembrando-te o que te disse no final dos versos: estás de parabéns, mãe, mas não é pela data, é pelo tanto que tens de incrível de ontem, de hoje e de amanhã.
Não somos perfeitos, jamais seremos, mas amo-vos com um amor que me acompanha do acordar ao deitar. Sou um filho feliz. E isso é a maior realização de uma mãe e de um pai, não é? Fizeram um bom trabalho, vocês.

Parabéns, Mãe. Nós sabemos o quanto vales!

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