Não é só o Tordo que vai

20101207162924_FERNANDO_TORDONão são os Tordos que me afligem, é a razão que se dá à desrazão.

Reparem, um filho escreve uma carta a um pai, sentido e triste, mais do que com a partida dele, com o que de um pai dizem. Mas as pessoas não percebem, para elas tudo é política e interesses. Se os mais jovens saem, como todos nós sabemos, o primeiro argumento é que para esses não há cobertura desta. Claro que não, mas isso é culpa dele? Ele não a devia ter usado?

Uns acusam o Cristiano Ronaldo de ser conhecido e não fazer uso dessa voz para protestar, mas esses mesmos, depois, quando um artista nacional, com cinquenta anos de carreira, sai do país, tendo ou não trabalho lá fora, e usa da sua voz para reclamar, já não presta, porque foi artista e deve ter ganho muito dinheiro.

Sabemos lá nós quanto ganhou. E mesmo que tenha feito espectáculos sem declarar, como tantos acusam, sabemos nós quantos não terão sido pagos?

A ligação à política perdura, mas neste caso não é o que mais importa. A comparação de Fernando Tordo a Mário Soares repugna-me. Um viveu da política, ainda hoje, já meio morto, vive da política, dos jogo que faz com a voz que lhe dão, com os terrenos que amealhou com aprovações marotas, com marfins, etc. Não é igual. É olhar o rabo e querer ver as calças.
Em vez de usarmos um exemplo concreto, real, de alguém que dá voz à revolta, não, tratamos logo de espezinhar e demonstrar, à força, que o nosso caso é pior. Pois é, ninguém dúvida, mas o que se ganha de pôr o outro abaixo?

É esta política, popular, de ser incapaz de aceitar uma reclamação de alguém que teve reconhecimento que me assusta. Não estamos a falar de um Jorge Cadete que ganhou quatro milhões de euros numa carreira de dez anos, lembrem-se.

Estas políticas desgovernadas de impingir, não só nestes anos, também de futuro, políticas de rebaixamento de reconhecimento ao trabalho que nos redoma num casulo que afasta a possibilidade de vermos além do ódio. E é isso que temos. A fasquia em baixo e um ódio mesquinho, que nos faz sofrer. Achamos que ao destratar os que reclamam, mostrando, à força, que o nosso caso é pior, que nos libertamos do que quer que seja. Mas não, porra. Corrói. É ácido a resvalar pelas nossas veias e a devorar-nos a pele, a enrugar-nos.

Sofremos, ninguém dúvida. Mas nem tudo é política. Existem sentimentos que a transcendem. E os nossos estão a ficar mesquinhos. É um filho que vê um pai a ir para o estrangeiro aos 65 anos. Não nos emocionaríamos se fosse o António da esquina que partisse, na idade da reforma?
Poupem-me a esse ódio que se cria às pessoas, só por serem reconhecidas e lhes tirarmos os direitos de reclamarem. Eu ganho 100, se me tiram 10 eu posso reclamar. Quem ganha 200, se lhe tiram 20 também pode reclamar.

Nem todos os reconhecidos são uns filhos da puta. Aliás, o Saramago até receber o Nobel muito era criticado. Depois, até se dizia que teve muita razão. Mas só virou um gajo porreiro quando morreu.
E é assim. O nosso mal não é o Tordo nem a política, é a essência que estamos a alterar, a necessidade de insultar todos os que reclamem, sendo reconhecidos, porque neles não há direito. Ele usou da voz, mostrou a revolta e partiu com o emprego, mas a carta do filho era a carta de um filho que vê o pai partir, numa idade que estamos habituados a ver as pessoas a irem para a frente da lareira, tristes, à espera da hora. Mas isso não importa, temos é que desmembrar uma revolta inteira, matar essas pessoas no meio, para no fim dizer, vasculhando: vês, não era assim tão gente boa.

Foda-se. Se está mau para o vizinho, que se aproveite a reclamação dele para mostrar que a nossa também está. De que vale matá-lo quando ele reclama, se isso nos deixa em situação igual, só felizes de ele ter morrido e termos mostrado que estamos piores?

Vivemos, cada vez mais, num país de demagogos, muito opulentos de opinião, mas pouco espertos. Ele reclamou das políticas do país, que também nós reclamamos, mas em poucas horas de facebook e twitter, de fóruns de jornais, conseguiu-se que ele saísse como um filho da puta, enquanto o Coelho e o Portas riem, às gargalhadas. Olha, amigo, este pensava que nos entalava, dizem eles, a sorrir, em conferências sobre as reformas que é preciso fazer, mas que não podem atingir o púlpito.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s