O sentido da vida!

transferir (1)É só futebol, eu sei. Vou saber sempre, mas nem por isso vou mudar a minha forma de estar. Tudo o que procuro na minha vida são momentos de diversão, de adrenalina, de emoção, de coragem é até de conquista. E o futebol, em parte, dá-me isso. Ou seja, não menosprezo, e se para alguns é sobrevalorizar, para mim não é. Nem para mim, nem para tantos que o acompanham.

Hoje, mais uma linha se escreveu no mundo futebol, com caligrafia e sonoridade portuguesa. Não foi só o Ronaldo que ganhou, por muito que todo o mérito deva seguir para ele. Um país tão pequenino, de tão pouca gente e dinheiro, ter quatro bolas de ouro é obra. Mais ainda pensando que já se perdeu uma, em 66, por um voto dado por um português a um inglês, e, mais recentemente, ter existido, pelo menos uma, que foi dada ao Messi, discutível. Ou seja, quatro bolas de ouro e duas muito próximas de o serem. É obra. Como é obra, neste mesmo país pequenino, termos visto um homem, serralheiro, tornar-se nobel da literatura, com alguns críticos a referirem que os grandes escritores têm um grande livro, os formidáveis têm dois ou três e o Saramago tem seis grandes livros. Fernando Pessoa é, também, ainda hoje, das vozes poéticas mais solenes do mundo. O Camões, oh o Camões, é o que sabemos. O Aristides de Sousa Mendes é o retrato da decência humana, no mundo inteiro – talvez mais do que cá seja sentido. A Amália mostrou ao mundo que há música tão nobre, que antes dela não era conhecida. O Mourinho, regressando ao futebol, está no cume desde que começou. Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro serão sempre marcos no nosso desporto e no mundo. Um dos bancos mais importantes do mundo é gerido por um português, Horta Osório. O melhor empresário do mundo do futebol é português, desde que o prémio existe. O Figo, com todas as trocas e baldrocas da sua carreira, nunca foi indiferente a ninguém e não escondeu o quão grande foi a sua qualidade. Nélson Évora também não pode ser esquecido, como não pode ser o nosso enorme Rui Costa, campeão mundial de ciclismo. Os Beatbombers, DJ Ride e Stereossauro, são campeões do mundo de Dj’s, na categoria de show. E entre outros, tantos outros, sem sequer viajando até aos longínquos anos das conquistas marítimas.

Somos pequenos e nem sei se estas pessoas são representadas por quem somos enquanto povo. Vivemos anos disformes, que não nos podem descrever. Muitos estão longe, outros estão tristes, outros privados de oportunidades. Mas se olharmos a estes exemplos, Ronaldo veio da miséria, Saramago era serralheiro, Rui Costa é de famílias humildes, o Dj Ride trabalhava numa loja de bicicletas para ganhar dinheiro para comprar material de som, o Eusébio foi o que soubemos por estes dias. Ou seja, não somos feitos de oportunidades, somos feitos de desenrasca, de crença, de vontade, de paixão.

O Ronaldo, hoje, se é que isso existe, mostrou a raça lusitana. Todos o crêem como arrogante, mas como é que um arrogante pode chorar na emoção do imprevisível? Ele não é arrogante, ele acredita nele e defende-se dos que não acreditam, sendo forte, escondendo-se da necessidade de se justificar, usando golos para isso. O futebol é só futebol, mas de lá, por estes dias, assisti duas vezes a uma coisa maior que essa diminuição, que só não percebe quem não quer.

Maior do que o futebol, é o sentido da vida. E Ronaldo e Eusébio foram exemplos nisso. O que vale nestes momentos, não é a importância relativa do futebol, é a promessa que o Ronaldo, vindo da miséria de uma rua da Madeira, disse que ali chegaria. E chegou e quis voltar a chegar. E voltou a chegar e quer voltar a chegar. E aqui não há futebol, nem literatura, nem música, nem ciência, há trabalho, há crença, há esforço, há devoção e há um sentido para a vida. E o que vou sempre admirar, e invejar no sentido mais puro e menos feio da palavra, será esse sentido. Olham o céu e chegam lá, habitam lá, indiferentes às pessoas que querem fazer parecer que, afinal, o céu não fica assim tão longe.

A Fifa fez uma homenagem tão sentida ao Eusébio como o Blatter estava à-vontade ao entregar a bola de ouro ao Ronaldo, o Péle durante a semana disse que o Eusébio era irmão, mas não lhe dedicou uma palavra, centrou tudo nele. Mas o Ronaldo, o homem que superou tudo em silêncio, a chutar a bola como um escriturário aponta as reuniões do patrão, a cabecear como uma empregada de limpeza passa a vassoura, explodiu. Explodiu em lágrimas de emoção, de quem sabe o tanto que trabalha para ali estar, de quem sabe que nem sempre percebem do que ele abdica para tantos e tantos anos depois continuar no cume, disparou o nome do Eusébio e do Mandela, humanizando um prémio que para ele era muito mais que um reconhecimento. Porque não estando na cabeça dele, penso saber o suficiente dele, para compreender que ele trabalha por ele, para ele. E só por isso se emociona tanto com o reconhecimento alheio. Ele habituou-se a vencer pelos objectivos dele, pela felicidade dele, pelas promessas que se faz, ao contrário do que dizem, e por isso chorou. A arrogância que lhe atiram, nunca lhe permitiu ter a certeza que tantos o admirassem como ele se admira a ele.

E sabem porquê? Porquê ele tem o que eu sempre vou admirar, da literatura ao futebol. Ele tem, conquistado por ele, o sentido da vida. E isso é lindo, caramba!

Parabéns, Ronaldo! O prémio é teu, mas permite-me, a mim e a tantos portugueses, levar um bocadinho disso connosco. Hoje, chorámos contigo. Ou, se calhar, chorei só eu, que sou um parolo nestas coisas da conquista humana, de um sentido muito superior à nossa existência! O tal imortal, tal como já és.

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