Resoluções de dois mil e catorze

As resoluções de novo ano são sempre um pouco antagónicas, são como as passas que engolimos esperando que o deglutir da nossa garganta faça acontecer o esperado. Como se fossemos máquinas fabris e o novo ano fosse o botão do on, o ligar ininterrupto de uma produção que necessitamos alcançar.

Acredito pouco nessas coisas de viragens momentâneas de calendário serem metamorfoses na pessoa que somos, mas ao mesmo tempo creio que essas instituições, tatuagens da tirania dos brandos costumes portugueses e mundiais, são um mote. E os motes são bons, são as alavancas que nem sempre as nossas forças conseguem.

Por isso, hoje, dia dois, dando espaço a um dia de marasmo absoluto, que deixou o corpo languido no lençol de flanela, avanço para o que mais desejo para mim neste ano de dois mil e catorze. Desejo que o meu ego se diminua, que a minha vontade de ser eu a enfrentar o mundo se desvaneça à velocidade dos suspiros dos que amo. Quero que eles sejam o vento e eu a folha que voa, que se desampara nos braços longos e fortes desse vento soprado pelos céus.

Sou muito mais do que me deixo ver, ainda assim exagero no tanto que me ponho ao meio de tudo. Tenho, em meu redor, pessoas capazes de fazerem mudar o mundo, dotadas de um amor que as palavras não alcançam e ainda assim situo-me demasiado em mim. Não pretendo passar a ser um coitadinho ou um necessitado, um dos muitos benzinhos que por aí se deixam andar, ou, pior, um dos vai-se andando. Pretendo continuar a ser assertivo, a olhar o mundo como a faixa de cinzas a ferver que vou ter que pisar pra chegar ao lago onde mergulharei, contudo mais ciente de que existem pessoas prontas a pisarem as cinzas para me acompanharem. Se pisassem e me pegassem no colo invalidariam a minha crença em mim, mas não é isso que fazem, simplesmente fervem os pés a meu lado, em cinzas de um caminho meu. São pacientes e apaixonadas, são especiais, como pirâmides no Egipto, ou casas de Miró em Barcelona, são as pessoas que eu amo, são as pessoas que eu quero conquistar por cada dia deste novo ano e por cada dia desta vida em que fui abençoado.

Para o novo ano não quero ser mais feliz, quero ser mais agradecido, mais compreensivo, mais capaz de ser ladrão. Quero encapuzar-me, vestir as roupas negras e roubar, roubar sorrisos em fartura às pessoas que fazem de mim quem sou. Para dois mil e catorze, desejo crescer e diminuir a minha egocentricidade, desejo dar mais de mim aos que tanto me dão.

Assim, para dois mil e catorze desejo uma felicidade nova, mais repleta, mais cheia de tudo o que sonho conseguir. Vou lutar sempre pelos meus objectivos, mas compreendendo, como uma criança compreende o laço dos cordões, que a minha felicidade é muito mais a felicidade dos que eu amo. Se eu for feliz e eles tristes, parte de mim é infeliz. Se eu for infeliz e eles infelizes, parte deles esmorece.

Em dois mil e catorze quero roubar sorrisos, com sorrisos meus. Este ano quero ser feliz como nunca fui, sendo centrado em mim, mas fazendo de todos ainda mais parte de mim. Quero ser mais eu, sem tantos receios de ser esquecido, sem tanta necessidade de ser reconhecido. Quero ser feliz a fazer o que gosto, percebendo melhor que o que gosto só faz sentido por ter a meu lado as pessoas que tenho. As pessoas que amo como nunca pensei amar na minha vida.

Bonito não são cabelos penteados, nem roupas faustosas, bonito são sorrisos. A curva mais perfeita do corpo de uma mulher e a maior eloquência de uma conquista masculina. Os sorrisos são a chave do mundo. E eu quero roubá-los.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s