Sextas-feiras treze!

Acordou e o corpo receava as entranhas de um dia que nascia da penumbra, fosca, de uma noite mal dormida. Vizinhos ruidosos, chuva estridente a embater no claustro do estore, fendas a serem abertas no ar puro de inverno.

A vida não lhe corria mal, mas também não lhe corria especialmente bem. Simplesmente, corria. Amorfa, parada na contingência de mais um dia em cima de outro dia, seguido de outro que já, antes, o havia sido. O corpo, mecânico, saltou do pijama, passou-se na água turva de um chuveiro relampejante e, logo de seguida, torneou-se para dentro de umas calças, de uma camisa e de um casaco impermeável, conforme o tempo rogava.

No olhar, trazia o breu da noite, o escuro da tempestade, o revolto dos ventos. O carro circulava cilindrado pela força da rotina e só a vontade de um café que o acordasse fez suster a viagem, numa primeira estação de serviço.

Com o jornal a desfolhar-se, quase sozinho, tal a sua automatização das rotinas, pediu um café. Ele veio numa chávena ligeiramente esquentada, a ferver, que ele logo tratou de levar do poiso seguro do balcão até à boca. Numa viagem tão curta, meros segundos, viu a chávena jogar-lhe o azar em cima, com um quente forte a verter-se da louça para a sua roupa.

O empregado, prestável e atrapalhado, fez-lhe chegar um pano, mas ele não reagiu à oferta e findou um dia ainda mal começado.

– Foda-se para as sextas-feiras treze! Já vivo nelas há vinte anos!

Ral

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