Ronaldo, o menino do carrinho Ferrari

Não foi só brilhante, também foi mágico, aguerrido, indescritível. O Zlatan, o Deus, como o próprio se intitula, aplaudiu. Bateu palmas a uma exultação do que é o futebol do querer. Sim, porque o Ronaldo é o futebol do querer. É o menino que empurrava carrinhos de roupa suja na academia e dizia que um dia seria um Ferrari a ser empurrado por ele.

Nunca chegasse a ter um Ferrari e seria um menino bonito e ambicioso, mas chegou a ter, fez do desejo a realidade, o presente. E isso incomoda, oh se incomoda. Lá fora e, tristemente, também cá dentro. Mas, verdade seja dita, ele é uma expressão maior do que é ser português. Precisa ganhar três vezes mais do que os outros para ter a coragem de se assumir como o maior. Já tinha ganho a bola de ouro, já tinha sido o melhor marcador do mundo, bateu esse recorde, mas até aí nunca se assumira como o melhor. Assumia-se como um dos melhores, o que até para os críticos havia de ser visto como arrogância, quando, no meu entender, era humildade. Uma humildade que só não é entendida por quem nunca ganhou. Ganhar tanto e só se considerar um dos melhores é humildade, perdoem-me mas é.

Ontem, ele deu mais algumas provas de que é um retrato de muitos portugueses. O Zlatan faz o segundo e ele aperta as botas com raça, cerra os dentes, e atira a bola uns valentes dez metros para a frente. O lance não deu em nada, fizeram um excelente corte. Mas, ali, com aquele atirar de bola, ele disse a mais dez: Vamos! Disse com raça, com a convicção que dele esperavam algo. Na estirpe de campeão, foi fazer mais dois, dissipar dúvidas. Na classe, deu toques de calcanhar e podia ter marcado mais um ou dois. Foi um retrato dos portugueses. Chegou a crise e arregaçou as mangas, sem vituperar os suecos. Os portugueses não são de ofensa fácil.

No final, gritaram: és o melhor do mundo, caralho! E ele sorriu, sorriu a saber que era, mas sem o afirmar. O português não gosta de afirmar que é, gosta que os outros, de fora, afirmem. O jornalista disse que os suecos, à frente dele, afirmaram que ele era o melhor. Ele sorriu, não conseguiu disfarçar o orgulho, mas disse que era o trabalho dele. Ser português é ser assim, ser o que faz e faz, sempre esperando que os outros o reconheçam.

O Zlatan disse que era Deus e que o Mundial sem ele não valia a pena ser visto, o Messi teve sempre um plantel e clube inteiro do seu lado, um presidente da Fifa inclusive, e o Ronaldo teve um clube bastantes vezes calado, uns espanhóis da equipa que o defendiam e tornavam-se patinhos feios, um país com medo de afirmar que ele era o maior, uma federação calada para não fazer muita mossa, com medo de ser prejudicada, e ainda assim ele foi fazendo. Na cabeça dele, sendo o melhor, mas sem coragem para dizer que é, de facto, o melhor. Fez à espera que o dissessem.

O Ronaldo, apesar dos Ferraris e relógios caros, é um português em crise. Precisa de fazer o dobro, calado, para ser reconhecido. Mas ele foi, finalmente foi. E continuará a ser, porque continuará a fazer. Não tenho dúvidas! O Ronaldo é um português em crise, sempre foi. Só é um português que não tem medo de sonhar e trabalhar para a crise ser debelada.

O Ronaldo é o melhor. É o melhor pelo jogador brilhante que é, mas, também, porque em toda a sua vida teve que fazer o dobro. Trinta não chegaram? Ele fez sessenta. Ligas dos campeões não chegam? Ele faz setenta.

Ronaldo é o menino que dizia que o carrinho da roupa havia de ser um Ferrari. E foi. É o nosso Ferrari.

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