Desabafo da precariedade

Não estava à espera de ser inundado por este desgosto. Tenho as paredes da pele a escoarem os excessos de sonhos que se evaporam.

Não, não entrei em depressão nem me deixei cair da vontade de ser alguém que deixe a sua marca. Não ambiciono uma marca muito grande, só uma marca que esteja á vista dos que amo e me amam ou amaram. Quero uma marca pequena, só um rasto de felicidade. Não preciso de uma casa principesca, de um carro que abalroe o alcatrão à passagem, só reconhecimento. Admito, o reconhecimento para mim vale muito. Mas, às vezes, o reconhecimento também devia ter cor de dinheiro. Não faço da vontade de ser rico o mote da minha vida, faço é da necessidade de ver-me a fazer o que gosto e a viver disso com leveza. Leveza não é riqueza, é desafogo.

Também tenho culpa, a verdade é essa. Sou demasiado romântico nos sonhos. Não ambiciono controlar uma empresa que lidera no mundo, não desejo ser o responsável máximo de um país, tenho mais a ambição do trabalho da proximidade. O sonho tolo de tocar corações e viver disso. Seja num uso abusivo das palavras, seja num trabalho feito com a minúcia de saber a cara de quem mo pede. Sonho mais agradar as pessoas que me rodeiam do que revolucionar o mundo. E pago por isso. Ou melhor, não recebo por isso.

Vivo num país que não quer saber muito de quem se preocupa com um, vivo num país que é feito de generalidades, de número abissais. Ou chegas a multidões, ou não mereces atenções especiais. Fazes o que tens a fazer bem e és só um mais que faz que o deve, até um que merece atenção especial para se perceber se não está a trafulhar. Sejas uma empresa bem-sucedida e todos te caiem em cima, do estado aos invejosos, aos oportunistas. Ou és Belmiro ou estás mal. Ou és Amorim ou estás à rasca.

Neste país não se quer individualidades preocupadas com o detalhe, quer-se frios que cheguem a multidões, onde não se distinguem caras, onde não se percebem desabafos únicos, onde não se tratam as pessoas pelos nomes.
Sonho errado, é o que eu percebo. E canso-me. Tristemente, e contra mim, começo a cansar-me. Pouco a pouco, ganho vontade de deixar isto. Não quero dinheiro em abundância, quero só um reconhecimento pela vontade que entrego às coisas. E isso, sim, tem preço. E não é o de cá. Estou triste. Não gosto de estar, não é disso que gosto de falar, mas hoje é assim que estou. Aqui, não somos prostitutas, somos piores. Não nos vendemos, temos que nos oferecer, dar-nos de borla em busca de uma exposição que, dizem, abrirá oportunidades. Por vezes, como hoje, penso se alguma vez elas chegarão.

Não quero ser rico, mas também gostava de não ser dado. Não sou triste nem vou ficar, mas precisava de dizer isto. Não sou um boneco. Sou romântico, mas não sou um boneco.

Há dias cinzentos, hoje foi um deles. Amanhã, não. Amanhã há-de haver luz, nem que seja eu o interruptor. Que se foda o país que não me liga, mesmo estando cá, eu não hei-de precisar dele. Eu sou eu e faço-me de mim, vivo de mim. Pobre, sem direito a nada, sem reconhecimento de quem nos oferecemos com brio, com vontade, com respeito. Mas nem que viva da água das chuvas e do peixe pescado, hei-de marcar quem amo. E isso é que me fará feliz. Hoje, amanhã e sempre. O resto é o local, não é o momento. Hei-de marcar-me nos que amo.

Ral

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