A vida dos outros

Por diversas vezes, quem sabe demasiadas,
Sinto o mundo pesar em mim.
Solevantar-se nas comandas,
Arquear-me nas forças.

Não sei porque diabo o sinto,
Cai-me tudo em cima!
Ninguém empurra, ninguém faz força,
Sou eu que o puxo para mim, contra mim.

Parte do céu, parte do mar,
Tudo sustentado ao meu cimo.
Alimento vidas que não são minhas,
Histórias que não me pertencem.

Sofro, em casos, a vergonha alheia
De olhar uma Doroteia, que se traje tal-qual meretriz.
Em outros casos, repreendo um filho, que trata mal o pai,
Desprezo uma namorada, que corteja o amante. Tudo sozinho.

Sofro, repulso-me só, desapego-me do que me pertence,
Saio na luta de mudar o mundo, de conquistar a certeza do bem,
De proteger os fracos e alavancar os fortes,
De ser tudo o que só os sonhos podem idear.

Ao mesmo tempo, uma voz longínqua grita-me:
Vem, seu traste, vem,
Que aqui em casa já não há quem te suporte,
Nem os teus filhos vêem em ti algo que importe.

Prossegue: vives as vidas trespassas,
Procuras a aceitação de todos, dos demais,
E esqueces quem te devia importar mais,
Quem te fez pertencer ao grupo dos pais.

Aí, nesse momento,
Percebo a essência do além,
De que olhar a vida dos outros
Pouco me convém.

Ral
http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades

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