De um ex-aluno, para um mundo de professores!

professores, direitos, cultura, conhecimento, ensino

O meu dia principiou descontente, ao compreender uma luta que não é minha, mas é de todos. Os professores não merecem o sofrimento em que são enclausurados, como nenhuma outra profissão merece, note-se.

Com a manhã descarregada em mim, com o peso dos olhos ramelados que se prendem, tomei café e li o jornal. Optei por colocar-me de pé, de frente para o balcão, a sentir o áspero quente do café a passar-me na garganta, enquanto chutava o fumo do cigarro para o ar e lia o jornal, percebendo as notícias do país e do mundo. Fiquei triste.

Não sou professor, ninguém da minha família próxima é professor, mas tenho pessoas que me são próximas nessa nobre profissão. Todos nós, mais ou menos instruídos, devemos algo a um professor. Demorei a compreendê-lo e até fui muito desvairado nessa relação de aluno/professor, pois a minha ganância de vida nem sempre foi bem gerida. Andei pelos píncaros da indisciplina, como prova da minha rebeldia e ânsia de vida, mas felizmente algumas pessoas, de pais a amigos e mesmo professores, canalizaram-me essa energia de existência para coisas mais giras e proveitosas, para rumos certos. Desde aí, percebi a luta ferina que é ser professor. Eu, como caso isolado, não seria problema algum, todavia, com todos os que se juntavam à minha falange de desastre, alguns ainda piores, a função de leccionar, daquelas pessoas com vida e família, que nos tempos de meninice temos dificuldade de alcançar, estavam lá, a aguentarem desaforos, a esforçarem-se por não prejudicarem os justos com os injustos. Conheço-me bem o suficiente, reconheço-me bem o suficiente, para admitir que alguns fizeram esforços dantescos, quase epopeicos.

Hoje, com felícia, cumprimento professores, sou capaz de os visitar e, acima de tudo, reconheço-lhes a importância e nobreza. Estou mais feliz comigo, compreendendo isso. Fico triste é com esta conjuntura que lhes é impregnada. Eles não têm estabilidade do princípio ao fim da vida, pois oram estão aqui, ora estão ali. Já nem muitos anos de serviço garantem o que quer que seja. Pior, têm um país que, em tantos casos, os coloca num pedestal elitista, que faz com que nunca se coloquem do lado deles. A meu ver, isso demonstra uma falta de gratidão, de reconhecimento e justiça, que não deveria caracterizar o nosso país. Existe uma imagem, que não compreendo, que todos os professores estão bem de vida, que reclamam de barriga cheia. Não percebo. Eles vêem-se obrigados a concorrer para aqui e para ilhas, para o norte e para o sul. Tenho amigos muito próximos, a perderem, quase completamente, os primeiros anos de vida dos filhos porque as colocações assim obrigam. Vejo amigos a fazerem complementos de horário a valores que são zombeteados por empregadas de limpeza, vejo amigos que não sabem o que é exercer a maior paixão que têm dentro deles. E ainda os acusam de serem oportunistas?

Mais, pessoas com quase vinte anos de serviço à deriva, sem saber o que será que o futuro lhes reserva, com filhos criados até à adolescência sem saberem se lhes poderão dar a segurança de continuarem a viver na casa de sempre, a estudarem na escola de sempre, ou se terão que pegar neles e seguir caminho, a chorar e a sorrir com uma nova colocação. Sufocados de verem a sua vida metamorfosear-se, mas a terem que sorrir porque uma nova oportunidade surgiu.

Não está fácil para ninguém, nisso estou de acordo, mas enquanto olharmos somente para o nosso umbigo, ou tivermos essa visão bacoca de elitismos, estamos no mau caminho. Não é pelos quadros inferiores estarem a passar dificuldades, que uma classe intelectual também não está. Então, qual foi a lógica de criticar tão sumariamente as pretensões dos professores?

Os elitismos que conhecemos e que gostamos de criar são, normalmente, resultado de estudos. Ou seja, são uma escolha. Essa inveja latejante das classes superiores, perde o sentido quando foi opção a desistência dos estudos, a opção pelo facilitismo de ir para os cafés jogar bilhar e esperar que chegassem os dezasseis anos para ganhar dinheiro enquanto os outros auferiam pequenas mesadas. Não estou a generalizar, cada caso é um caso, estou simplesmente a referir que existem estes casos, que a grande maioria das críticas vem destes casos. E isso não percebo. Por muito que possa compreender a tristeza e frustração dos que não conseguem chegar aos estudos que desejavam e mereciam.

A crise e as dificuldades estão em todas as áreas, não há distinção, por isso não percebo a revolta pungente contra os professores. Um país vive de cultura e conhecimento, e os professores são, talvez, os primeiros transmissores disso mesmo. Não sou professor, os meus pais não têm sequer estudos superiores, grande parte da minha família também não, mas não é por isso que monto um cavalo de tróia contra eles. Se em tempos fui um traste do secundário, alguns professores levaram-me ao encontro de um futuro diferente. Se tudo está negro, o único clarão que me surge devo-o, em parte, a eles. Enquanto eles não têm tempo para se regozijarem disso, pois estão de mapa na mão, a perceber onde abrem concursos, onde poderão levar a cabo a sua paixão.

Não sou um defensor acérrimo dos professores, sou, sim, um defensor da revendição por direitos. Se nós não lutamos pelos nossos, não me parece justo que critiquemos os que lutam. Mais justos ou menos justos, só quem está lá dentro pode perceber.
Fiquei triste ao ler testemunhos de professores com cinquenta anos de idade e vinte de profissão, com olhares cinzentos de desespero a afirmarem que talvez tenham escolhido a profissão errada. Eles são os pais da nossa cultura e conhecimento, são, portanto, o primeiro motor da nossa evolução. Não me peçam para ignorá-los, ou criticá-los. Já o fiz, na idade que as minhas atitudes eram medidas à escala da rebeldia de momento. Agora, cresci!

Ral
http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades

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2 thoughts on “De um ex-aluno, para um mundo de professores!

  1. Axo k n deves defender os setores, pk a maioria nao kerem saber dos alunos, so ker resseber o salario e kagam no resto, e mesmo assim, estudar ca em portugal nao serve de nada, vale mais nao estudar k ganhaçe o mesmo

    • Rodrigo, cada um é livre de pensar e sentir o que bem entende. A meu ver, se há professores que não são tão bons como deveriam ser, há muitos alunos que não são tão bons como deveriam ser, há advogados que não são tão bons como deveriam ser, há engenheiros e gestores que não são tão bons como deveriam ser, há serventes que não são tão bons como deveriam ser, e por aí fora.
      Quanto ao estudar e ganhar o mesmo, estou de acordo que cá um licenciado ganha quase o mesmo que um desempregado, mas a verdade é que prefiro ganhar o mesmo que um desempregado e ter a benção do conhecimento. Ele não enche a barriga, por vezes até nos faz mais infelizes pela consciência do mau que passamos, mas é tão bom tê-lo. Contudo, como te digo, cada um é livre de pensar e sentir o que bem entender, por muito que eu não me reveja minimamente no que é a tua opinião.

      Cumprimentos,
      Ral

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