Os meus medos

482297_4781064520716_1494401278_n

Não é fácil falar de medo, temos medo. As palavras são, normalmente, muito pesadas e quase proféticas. Proféticas no oposto, umas tantas vezes. Pensamos nelas e dizemos, transmitimos aos outros e, de repente, num assomo, estamos acorrentados a elas, a caminhar no sentido inverso.

Quando era mais miúdo, depois de uma experiência traumática, ganhei medo dos cães, ficava apavorado se eles viessem na minha direcção. Hoje, já não é assim, sou menos medricas e já posso aproveitar um bocadinho da maravilha que eles são. Desde sempre, tive vertigens. É uma coisa chata e que nos rouba paisagens lindíssimas, mas agora até já consigo estar em alguns sítios altos e relaxado. Primeiro, consegui ver alturas no horizonte, actualmente até já vejo algumas a pique. Fiquei feliz, claro, contudo ainda existe caminho a ser feito, para sonhar subir no elevador da Torre Eiffel, por exemplo. Aos pouquinhos.

Outro medo grande que tenho é do fim e do bloqueio de vida. Temo uma vida desinteressante e sem utilidade, como que uma vida que aguarda o fim. Gosto de agitação, que não precisam de ser férias, festas ou grandes loucuras, gosto somente de saber que tenho um objectivo, que quando tudo falhar ainda terei alguma coisa que me faça mover. Preciso de objectivos, quase como preciso de ar. Talvez até precise mais de objectivos, pois eles são o meu ar. Respiro-os. Não fui sempre assim, é certo, mas cada vez mais me revejo nessa vontade de ter algo que fazer. Amedronto-me, de verdade, com a possibilidade de não ter o que me mova. Temo, também, a morte, por ser uma sentença. Não gosto de sentenças, gosto de permeabilidade, gosto de ajustes a novas realidades.

Tenho companhias de sempre, como a minha cabeça e os meus pensamentos, mas temo que também eles me fujam na fraqueza. Admito, sempre temi a velhice, o receio de um quotidiano demasiado pacífico, porém isso mudou. Percebi que a pacificidade só acontece se não tivermos paixões e vontades. E eu tenho. Não tive sempre, fui conquistando. Hoje já não temo tanto a velhice, penso que se chegar a ela com força nos braços e poder no pensamento, terei sempre a escrita, e isso é um conforto. No fundo, escrever tornou-se o meu regaço, o sítio onde me recolho quando tudo o resto falha.

O medo que tenho, afinal, é que a escrita seja o meu único refúgio. Quero escrever para sempre, mas quero escrever para sempre do que vivi e sinto. Gosto de ficcionar, mas gosto de me encontrar em cada ficção. Enfim, tenho medo de deixar de ter medo. É isso, tenho medo de deixar de ter medo. Quero um refúgio, e para ter um refúgio preciso de ter medo de ficar sem ele. Ah, e também tenho medo de não ser tudo o que quero ser. Mas isso não é medo, é ambição!

Ral
http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s