Virgem no monte

A escassez só é sentida na ausência do já tido. Até lá, é uma viagem de descoberta.

O sol descia vivamente pelas colinas do interior algarvio. O Urbano estava refastelado na sua cadeira de madeira, posta de frente para o outeiro.

Um dia, quando se soube das belezas desse interior, que, não tendo praias, tem uma imensidão que cativa, umas casas brancas que enobrecem o caminho das veredas, o Urbano estava sozinho no seu campo de cultivo. Só, como estava sempre. Solitário, ermo, indiferente ao Verão ardente, de uns quilómetros adiante. Era um homem pacato e que caminhava para a idade idosa com a virgindade em punho. Nunca, na sua vida inteira, conhecera uma mulher na soleira do prazer. Conhecera mulheres, sim, mas esposas de conhecidos, catraias da aldeia ou das terras adunadas, mas nunca uma mulher que lhe perpasse o corpo, afagando-lhe os lábios na sentença da concupiscência. Era um homem triste, mas não por isso. Era triste porque era como sabia ser.

Passava os dias entremeando o campo, com a sua cadeira de madeira. Nela, na cadeira, já viajara por todo o mundo, sem nunca ter arredado pé da aldeia pequena que se esconde no Algarve que não interessa a ninguém. Perto existia Tunes e a sua estação, um centro de chegada, mas que não lhe aprazia de vontades. Gostava mesmo do recato do seu monte, da calmaria do café. Falava pouco, pois falava com uma destreza bastante incomum, com termos desconhecidos dos viventes do lugar. Tinha estudos sem nunca ter estudado. Lia como um aluno deve ler, percorria histórias como um fantasioso deve percorrer. Afinal, para engano dos que lhe viam o rosto fechado, era feliz.

Ao lado da sua colina para o mundo, desenhava-se uma quinta de famílias bastas. O relvado vencia em dimensão o seu canteiro, a piscina ganhava-lhe em área ao terreno de casa. Sabia quem era a família, pois era de Cascais, onde ele viveu até aos dezasseis anos, altura em que se retirou para o interior do Algarve, donde não mais saiu. Porém, raramente por lá os via, excepção aos caseiros que lhes faziam parecer a casa habitada a toda a hora. Naquele dia, o ruído era estridente, fazia-se ecoar pelos caminhos de vento seco do monte acastanhado. Olhou e percebeu corpos a moverem-se na água azul da piscina. Eram jovens, esculpidas, desnudas. Voltou a olhar. Continuavam jovens, esculpidas e desnudas. Pensou que devia retirar-se, afastar-se daquela imagem que nada lhe deveria dizer. Contudo, existiam amarras que o prendiam naquele lugar de sempre, com uma sensação de nunca antes.

O Urbano tinha quarenta e cinco anos, o corpo desenhado pelas horas de cultivo e acartamento solitário, enquanto a pele se fervia pelo sol do Algarve. A barba por desfazer não era uma opção de vaidade, era uma comodidade que lhe libertava tempo para os livros, para as vidas alheias que eram a sua.

Naquele dia á noite, foi ao café de sempre, beber a sua cerveja. Sentou-se e, de repente, o café pacato foi inundado por uma barafunda. Entraram quatro raparigas da cidade, jovens, bonitas e ligeiramente embriagadas. Uma delas, olhou-o fixamente, enquanto pedia os cafés e cigarros no balcão. Os homens estrebuchando-se entre si, comentando que coisa era aquela que os tirava do sério. As mulheres negando com a cabeça os calções curtos, os decotes que deixavam fugir peitos bronzeados. E o Urbano de saída, a caminho de casa, da cadeira que lhe daria mais uma noite de histórias alheias, regadas pelo estrelado que resplandecia no céu.

Quando estava quase a embarcar pela sua porta de casa, para uma viagem por planetas incertos, foi interpelado.

– É o vizinho, não é? – Questionou uma das moças, vindas da cidade, meia assarapantada.

– Certamente sou, pois tenho uma casa de ilharga à minha. Só não sei de quem sou vizinho – ripostou o Urbano, com um jeito altivo e, simultaneamente, cortês.

A rapariga sorriu, deixou fugir o brilho da dentição. – Sou a sua vizinha, a Irina.

– Prazer – respondeu o homem.

– Todo meu – devolveu a jovem, com desdenhe. – Queria fazer-lhe uma pergunta.

– Diga.

– Sabe ligar o sistema de rega?

– À partida saberei, porquê?

A rapariga desequilibrou-se um pouco, notava-se que o jantar na mesa do jardim tinha sido bem regado.

– Porque eu e as minhas amigas mandámos os caseiros de férias e agora queríamos ligar aquilo e não sabemos. Pode vir lá comigo?

Não lhe apetecia muito, foi óbvio na expressão fechada, contudo respondeu: – Vamos lá ver isso.

Enquanto caminhava, atravessando as portadas de madeira, como um portão de uma herdade de largos hectares, ouviu uma música estridente e vozes em alvoroço. As outras jovens estavam já de biquíni, na zona resguardada de convívio, ouvindo música e bebendo garrafas de uma cerveja amarelada e fresca, com limão. Assim que se chegou, os sorrisos baixos e os comentários imperceptíveis iniciaram-se. O Urbano acanhou-se e procurou forma de ligar a rega com rapidez, de forma a escapulir-se. Quando o conseguiu, sentiu o calor humano de quatro raparigas, quase despidas, a dançarem em redor dele. A Irina, a dona de casa, como mestra daquela organização, era a mais libertina. Começou a passar as mãos no peito do Urbano, a abrir-lhe ligeiramente a camisa, ao passo que as outras se balanceavam na frente dele, roçando-se, com biquínis curtos. Ele estava aflito, contrafeito, procurava forma de se abstrair e fugir, mas não conseguia. Algo o prendia, o subjugava a uma vontade maior de quedar-se. Contudo, numa velocidade irreflectida, afastou-se. A jovem Irina, porém, já descomposta do biquíni, puxou-o e disse:

– Não quer cometer uma loucura?

O Urbano, com o suor em bica pelo rosto, afastou-se novamente e afirmou:

– Loucura ando eu a cometer há muitos anos, não será agora que o vou mudar.

As restantes raparigas continuaram embriagadas, mas a Irina foi reposta de um espasmo de sobriedade.

– Como assim?

O Urbano abriu a porta, começou a preparar-se para sair e disse:

– Mulher só quis uma, as outras seria para usá-las. E isso não faço.

Bateu a portada de madeira e saiu.

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