Discutir greves

greve, discussão, desagrado, tempo de antena, poder negocialOntem, sem grandes eruditismos, estava a discutir greves com algumas pessoas. Estava sozinho, exposto ao vento, contra a rajada. Mas a minha opinião não mudou, seja demagoga ou não. A greve é um direito e dever ser preservado, a meu ver.

Não se deve abusar desse direito, isso concordo, até porque muita insistência perde o poder de passar a mensagem, mas devemos fazer greve e ser ouvidos. O parlamento está disponível para a democracia, mas limitado aos eleitos dentro de leques escrupulosamente seleccionados. O poder mediático está do lado da classe política, o que por consequência lhes dá o tempo de antena. A decisão é deles, após uma votação limitada a três ou quatros opções. Ou seja, em suma, se nunca fizermos greve, se não provocarmos transtornos ou receio neles, jamais nos será dada atenção. A democracia tem algo de tecnocracia, prova disso são os sistemas implementados, onde se predominam os números, em detrimento das ideologias e sociologias.

Não posso estar de acordo com a CP, pois são greves demasiadas, com alguns interesses que não decifro. Porém, também aqui posso estar errado. Não sou, também, apologista dos plenários dos tempos pós 25 de Abril, onde se despediam patrões e quase solicitavam ordenados sem trabalhar, querendo orgulhar uma liberdade que ainda não se percebia o que era. Agora, argumentarem-me que mais vale estar quieto com as greves porque não resolvem nada? Dizer que é um disparate num país em crise fazer greve? Que as greves servem é para os malandros? Isso, não. Não mesmo.

Se nada se resolve com as greves, se as negociações são inócuas, muitas vezes é por termos uma democracia mais limitada que o desejável. Não sou apologista de socialismos disparatados, notem. Não acredito em países como França, onde por diversas vezes se protege mais quem não trabalha do que quem trabalha. Não me confundam, por favor. Defendo, sim, que se após decisão conjunta a greve for a única solução, deverá ser feita num dia em que expõe a outra parte a riscos. Se o Estado, por exemplo, nos expõe ao risco de afundar a economia a bem de decisões deles, se nos expõem à precariedade a bem de decisões deles, se nos limita ao máximo as possibilidades de emprego ao enfraquecer os patronos, como não devemos colocá-los em risco?

Prejuízo dos alunos? Sim, claro, mas essencialmente pela intransigência do ministério. Então, dizia-se que era impossível alterar a data dos exames, mas vai haver um segundo exame a 2 de Julho? Era impossível e encontraram uma solução? Não percebo. E, agora, por uma pequena bandeira de vitória, coloca-se alunos em situações diferentes, em que obviamente se criaram divergências irremediáveis, como o sentido de justiça, seja para que lado for?

Estou farto de um país onde não se percebe a essência das coisas, onde se criam definições que se tornam rígidas, sem variabilidade, a fim de uma coerência que se torna incoerente. Estou farto que se critique a Função Pública cegamente. Não sou funcionário da Função Pública, não sou apologista de todas as regalias de que dispõe, também já fui mal atendido em repartições públicas, mas, caramba, cada caso é um caso. Isso não se percebe? Mais, eu sou um dos que defende que políticos, juízes, analistas, inspectores, deveriam ser dos mais bem remunerados, por saber da dificuldade que o peso da decisão tem e pela, quase, certeza que os mais satisfeitos menos permeáveis se tornam à corrupção. Ainda assim, não os defendo e acho que não nos devemos virar contra classes que como nós, nas conversas de café, lutam pelos seus direitos e pelo que acreditam ser mais justo.

Vivemos num país onde se criam soluções de remédio que fazem furor, contudo não se percebe que remediar não é a solução de tudo. ‘O que não tem remédio, remediado está’, somente é verdade em alguns casos. Coerência e parvoíce, a meu ver, são coisas díspares. Era o que mais faltava, dizer que não devemos fazer greve, ou que devemos fazê-la aos domingos. Lembrem-se que a nossa capacidade negocial está na comunicação social. Experimentem fazer uma greve que não ponha nada em risco e verão quantos noticiários serão abertos com isso. Não acredito na profissão de sindicalista, se for exclusiva, se não perpassar o terreno, mas não é por isso que defino uma classe toda pelo sindicalista, isso é o argumento do desespero. Acreditam, mesmo, que numa classe que ensina os outros, é um simples sindicalista que faz a cabeça a pessoas cultas? Acreditam mesmo que a solução é calarmo-nos porque não vale a pena fazer greve?

Porra, esperava mais do nosso país! Liberdade é um direito, não é uma regalia!

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