O preto na aldeia

aldeia, preto, morte, caféChamava-se Nuno e vestia sempre uma camisa aberta. Não importava a cor, o padrão ou o corte, sempre camisa. Ao menos, desde que chegará à aldeia. O Nuno era negro e vinha de Angola. Montou lá um negócio, onde era o patrão da construção das estradas. Diziam os velhos da terra:

– Isto está tudo mudado, agora até os pretos mandam!

– É verdade. – Respondiam os outros, sem ordem. Numas vezes falavam uns, noutras outros, mas falavam sempre.

Era uma aldeia de costumes, sempre distante dos computadores e televisões por cabo. Os tdt’s só chegaram por prenda de natal. No café, o Central, era onde morava o casal jovem. Patrícia e Carlos. Depois de alguns anos fora, como todos os outros petizes, decidiram regressar. Aliás, o Carlos decidiu voltar e a Patrícia não teve outro remédio. Ela não queria, estava de bem na vida que fruía. Já era uma advogada bem paga.  Mas ele, o Carlos, com a chegada dos imigrantes de África e do leste, estava desempregado das obras que tanto lhe haviam dado de comer nos primeiros anos. Andava sublevado e resolveu pegar nas poupanças dos pais dele e da Patrícia, para montar o café da aldeia. Os velhotes agradeceram, já dava para bater as cartas e falar do nada que por lá se passava.

Não gostavam do Nuno, contudo ficavam felizes de o Nuno por lá estar. O preto era conversa. E conversa era coisa que havia pouco por ali. Ele, apreciava acabar o dia de labor e ir beber uma cerveja ao Central. Punha-se, de camisa aberta, no balcão e pedia uma, duas, três, quatro, cervejas. Comia uma sande e chegava-lhe. A Patrícia servia e o Carlos comentava com os velhos da fraca figura, do repúdio que lhe dava. Eles assentiam e diziam como se ele lá não estivesse. E não estava. Não lhes ligava.

Um dia, chegou o Máximo, um dos velhos da aldeia, e disse:

– Já viram o preto morto junto à obra? Acho que lhe deram com um martelo no peito.

A Patrícia carpiu, disfarçando mal a inquietude, das saudades do peito do negro à vista.

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