Mas alguém sabe o que é amar?

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Ele era abonado de cenário, conjugava roupas com mestria, desde a ganga ao blazer. O ar era italianado, com um tom de pele moreno e um cabelo que acumeava num repuxo, usando tatuagens a preencher-lhe a pele como se fosse uma moldura pronta a ser pintada. Não era extraordinariamente belo, mas possuía um savoir-faire que as palavras não descrevem, contudo os corações das mulheres sentem.

Embrenhado no seu trabalho de pintura e conteúdos, definia o seu horário como bem lhe aprazia. Agarrado a prazeres como os bons vinhos, os jantares sumptuosos, os relógios de milhares, as noites regadas a whisky ou espectáculos de teatro e exposições de pintura, levava a vida com uma luxúria que não escondia nem escarnecia, apenas aproveitava. Numa das noites de jantares com amigos, travou-se em conversas com o Álvaro.

– Hoje não vou poder sair com vocês, já tenho umas coisas combinadas.

Referia ele, deixando escapar o fumo pelas narinas e respiração, com o som do bairro alto a compassar-lhe as passas.

– Mulheres! É fácil de ver!

Retorquia o Álvaro, com a sua postura elegante, entabuada num fato talvez Boss, talvez Armani.

– Não tenho como negar, elas são a minha perdição. – Sorria, com aquele entremear de lábios com movimento de olhar felino.

– Tu não tens emenda, fazes delas o que queres.

– Pára lá com isso, eu dou-lhes o que elas querem. Nunca menti a nenhuma.

– Não me venhas com lérias, alguma vez disseste a alguma que só a ias levar para a cama naquele dia e depois nunca mais lhe ligarias?

– Não ponhas as coisas nesses termos. Eu prefiro assim, nunca disse a nenhuma que ia namorar com ela, casar e ter filhos.

Depois de uma gargalhada conjunta, o Álvaro prosseguiu. – Sim, para a tua consciência deve ser uma maravilha manter essa linha de pensamento. Sem dúvida!

– Consciência, qual consciência? – Nova gargalhada a par.

– Mas, então, diz-me lá quem é a vítima de hoje? É a estrear ou já conheço?

– Conheces, claro. É a dona da galeria, ali no Saldanha, onde expus o mês passado.

– Bem, aquele mulherão, aí dos seus quarenta a aparentar vinte?

– Essa mesmo, meu caro. Sabes que não faço por menos!

– Tu e essa modéstia! Olha lá, mas isso já vem há um mês ou só agora é que veio a ardência?

– Opa, acho que me deixei enganar de vez. Nas primeiras duas semanas com ela, ainda estive ali com uma loira no Lux e uma espanhola maravilhosa aqui no bairro, mas depois deixei de conseguir.

– Não brinques comigo! – Replicou o Álvaro, com um ar de espanto.

– Juro-te, desta vez fui apanhado. Tanta mulher que me passou ali pelo apartamento, por aquela vista deliciosa para o Tejo, onde até as mulheres de outros se regozijavam, e agora estou bloqueado. Só consigo levá-la a ela. É um mulherão!

– Oh diabo, que isto é sério! Olha, um dia que o meu amigo regresse avisa, acho que tenho saudades dele!

Mantiveram-se a gargalhar, com uma harmonia de amigos inseparáveis. Até que, findado o jantar, o pintor de pinta inegável, decidiu abalar para as coisas combinadas. Saiu entusiasmado no seu Porsche descapotável e levou-o ao som de Bem Harper e ao ritmo de nuvens de fumo até às Docas. Quando estacionou, virado para o Tejo, avistou a sua musa ao longe. O breu da noite só lhe permitia reconhecer a voluptuosidade das curvas dela, ao lado de alguém.

Ao aproximar-se, percebeu que se tratava de um homem, com um fato semelhante ao do seu amigo Álvaro. Aliás, mais perto viu que era o seu amigo Álvaro.

– Álvaro?

– Desculpa, mal me disseste aquilo eu tive que vir acabar com ela, percebi que estavas apaixonado.

Enquanto isso a dona da galeria, no seu vestido beije e curto, revelando linhas sumptuosas, mantinha-se impassível. Até o nosso pintor galifão lhe dirigir a palavra.

– E tu? Não dizes nada? Com os dois, a sério?

– És, sem dúvida, a pessoa ideal para me julgar, meu bem. Não conseguia escolher, tu tens todo o apelo da carnalidade, aquela robustez que desmonta uma mulher, mas ele tem aquele doce de amar até na traição, de mimar até na brutalidade.

– Sua filha da puta, eu estava apaixonado.

Ela soltou uma enorme gargalhada.

– Mas alguém sabe o que é amar?

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