Pingo de Água (conto do REALIDADES)

Hoje apetece-me deixar-vos um texto do REALIDADES. Um texto que foi lido de forma sublime, na passada sexta-feira, no Paralelo 38.

Já sabem, caso pretendam adquirir um exemplar basta enviar-me um email (ricardoalopes.lopes@gmail.com) ou visitar a Livraria da Bubok ( http://www.bubok.pt/livros/6257/Realidades )

Aqui fica o texto:

Pingo de água.

Estou só. E triste. Tenho-te procurado dentro de mim, no correr das minhas veias, no palpitar do meu coração, mas não apareces. Tenho receio de já não me lembrar do teu rosto. Não te quero esquecer.

Foram anos e anos de partilha, de descoberta conjunta e agora um sopro de vento, um simples bafo de um ser do além, despedaçou tudo. Consigo ver as folhas de papel escrito, com trechos do nosso amor, a boiar neste mar pacífico que me banha o jardim de casa. Que me toca a praia onde te conheci. Fomos tão felizes aqui.

Olho pela janela e consigo ver-te correr pelo areal, as tuas calças dobradas, como sempre, até meio das pernas, enquanto salpicas água a cada passada que dás. Parece-me sempre que o mar sorri a cada movimento de braços, a cada alongamento de pernas, que fazes. Tu tens esse dom, eu sempre soube. Semeias planícies, em montanhas frias. O dia está invernal, chove, caiem lágrimas do céu pelas saudades que tenho de ti. Parece que o cosmos se uniu, nesta desumana luta que travo, com o destino que me fez ver-te partir. Tudo está mal sem ti. Fazes falta às pequenas coisas, aos conselhos que me davas, refogados de amor e bravura. Eras uma grande mulher.

Sempre admirei a tua entrega, em tudo o que fazias. Nunca deixaste a doença vencer-te, foste sempre tu que a venceu. Ela queria amarfanhar-te, prender-te ao sombrio do dia de hoje, contudo emanavas luz. Gozavas com o cinzento do céu, com uma delicadeza de princesa. De princesa que foste e sempre serás. Sim, porque nunca deixarás de existir, estarás perpetuada nos corações de quem te amou, de com quem te cruzaste e fizeste sorrir.

Eu nunca tinha ouvido falar de trissomia 21, até ao dia em que apareceste nesta praia. Neste nosso quintal. Estavas radiante com as tuas amigas da instituição, como sempre, baforavas alegria, despontavas algo em nós que as palavras nunca conseguirão dizer. Foi fácil conquistares os meus pais, que viriam a ser os teus pais também. Tu não sabes, mas eles ainda não te tinham adoptado e já confidenciavam que, desde que te viram, era impossível voltar a viver sem ti. Eras o elemento que faltava, na construção das nossas existências. Se cada um fosse uma peça, tu serias a da alegria.

Eles, desde o início, sabiam que tu irias partir. Eu não, nunca me contaram. Mas, sabes? Foi melhor assim, pude gozar mais de ti, de tudo o que tinhas para me oferecer, pois eu não estaria preparado para lidar com essa finitude anunciada. Fomos mais felizes assim.

Hoje estou aqui, nesta casa, com a minha mulher e os meus filhos, a relembrar os dias que passamos juntos. Faz 10 anos desde que partiste. Podia estar triste, como comecei esta carta, no entanto não estarei. É a alegria e o sorriso que te definem, não posso renegar essa marca que vincaste nas dezenas de corações de quem chorou a tua partida.

Amo-te, maninha. Em 9 anos fizeste de mim mais homem, do que qualquer escola poderia fazer. Tu nunca foste doente ou diferente, sempre foste especial. Como este pingo de água, que me escorre pelo rosto e molha a folha, anuncio o fim da carta e o prolongar da saudade.

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