Ainda há esperança neste mundo

zimbabué, crianças, descalças, pós-natal, pai-natalEle era pequenino, vivia os seus primeiros natais. Não conhecia bem a origem daquelas barbas compridas, e postiças, que o tio, que ele não sabia que era tio, usava.

Passou a noite do dia 24 completamente eufórico, à espera da meia-noite. Aquela hora era mágica; marcava a chegada das prendas desconhecidas; marcava o conhecer de uma nova hora. Nunca antes, o pequeno Ismael, tinha ficado acordado até tão tarde, sempre que se chegavam as 22h lá ia deitar-se. Depois de lavar os dentes, depois de ouvir a mãe dizer que estava na hora. Uma vez, nas férias de verão dos pais, tinha-se deixado ficar até às 23h, mas meia-noite nunca.

Chegou a meia-noite, e a porta da sala abriu-se, entrou o pai-natal com umas roupas vermelhas, com um chapéu vermelho, umas barbas estupidamente compridas, e os óculos de sol que não faziam sentido à noite – mas escondiam o olhar verde do tio.

– Oh, oh, oh. – Disse o falso pai-natal.

Logo o menino Ismael se assustou, fez uma cara esquisita.

– Ismael, não tenhas medo. O pai-natal veio trazer-te as prendinhas. – Acalmava-o a mãe, a dona Isabel.

Ele tranquilizou-se e, sem falar, estendeu os braços e aguardou pelos seus embrulhos. Não estava absolutamente feliz, pelo receio que aquela personagem lhe despontava, no entanto não escondia, também, alguma euforia e curiosidade.

Chegou um carro de corrida fabuloso, com um telecomando e uma imponência transcendente. Saiu o primeiro sorriso, com um brilho no olhar, que já denunciava uma admiração pelo tio-natal, neste caso. Seguindo o ritual, do natal dos meninos, lá se abriu uma caixa com umas sapatilhas nike que ele tanto queria, acompanhadas de um fato-treino de estilo, todo catita.

– Obrigado, pai-natal. – Proferia o menino Ismael, com uma educação e mel que desmanchou toda a sala. A família embebecida com o carinho daquele menino.

Refastelou-se mais duas horas a brincar com o carrinho, guardando a seu lado o material desportivo que o envaidecia, para gáudio de uma família completa. No dia 25 continuo a brincar com o carrinho, já vestindo o fato-treino e as sapatilhas, enquanto recebia mais prendas.

Chegou o dia 26 e almoçavam em família, a Dona Isabel o senhor Israel e o menino Ismael. Da televisão vinham imagens de áfrica, com meninos de peito de feito radiografia – sem carne, só com osso. Descalços caminhavam por estradas de terra, sem bermas, nem alcatrão. Só pó. Só caras tristes.

– Papá, porquê que aqueles meninos não estão com o fato-treino e as sapatilhas que o pai-natal traz?

Os pais atrapalharam-se num olhar dividido, sem saber o que dizer. Estupidificados.

– Sabes, aqueles meninos são muito pobres e não têm dinheiro para as roupas e o pai-natal também não consegue ir lá, por ser muito longe. – Afirmava o senhor Israel, pouco seguro da excelência da resposta.

– Papá, podemos ir lá nós? Eu gostava de oferecer-lhes as minhas sapatilhas e o fato-treino, eu queria muito mas tenho outras para usar. – Disse o pequeno Ismael, para estupefacção dos pais.

O pequeno Ismael, num dia pós-natal, pós euforia, demonstrou a pessoa em que se iria tornar. Hoje, trinta anos depois, é voluntário da cruz vermelha, no Zimbabué. País que naquele 26 de dezembro lhe perfurou a televisão e acertou o coração.

Ainda há esperança neste mundo.

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