Viver em crise

viver em crise, desviver, sofrer, sem mimos, sofrimento, criança triste“Mãe, é tão giro, eu gosto tanto. Por favor, por favor!”. Não faz muito tempo, foi na minha meninice, que com esta frase alcançava muito do que pretendia, do que desejava incessantemente naquele instante exacto.

Não era dado adquirido que o recebesse, por muito que seja filho único e mimado, existia uma análise detalhada da longevidade, possível, do brinquedo. Se fosse uma bola que eu daria uso, se na escola eu não desembarcasse em conversas exageradas e brincadeiras despropositadas, em princípio teria. Seria um mimo para o filho. Hoje não. Não há espaço a bolas ou veleidades, a corda está no pescoço e chutar a pelota pode sufocar.

– Desculpa, Filho. É mais importante colocar comida na mesa. – Diz a Mãe, com uma asseveração de mensagem na voz, seguida de humedecimento no olhar. Tudo sob o observar triste do Pai, resignado.

– Mas, Mãe…

– Não, Filho, não há mas, a Mãe está desempregada e eu ganho pouco. Gostávamos muito de poder oferecer-te a bola, no entanto são 10€ e eles irão fazer falta para outras coisas mais importantes. – Responde o Pai, com o coração reduzido a pó, esmiuçado a nenhures, perante o lacrimejar de um filho que não percebe o desabamento do mundo, a queda dos hábitos.

É assim viver em crise, com o impedimento de oferta de mimos, o aperto até do necessário, quanto mais do extra. É uma dor constante, uns elásticos que prendem sorrisos e sodomizam alegrias. É estar no centro de um arco-íris de cinzas e pretos. É ver um interruptor avariar-se e dar-se um jeito com fita-cola; é termos o filho a chegar da escola, cheio de fome, e dizer para ele aguentar que o jantar está quase – é esse que se poupa; é esquecer a sobremesa e comer arroz quatro vezes por semana; é olhar para dentro dos cafés e pensar que é melhor tomarmos em casa e ler o jornal no muro da praia; Aliás, qual jornal? Esse espreita-se no computador em casa, se ainda houver net no pacote da televisão.

Viver em crise é estar triste. É abdicar de tudo o que são pequenos prazeres, para laborar por um mínimo básico, que não nos traz alegrias, dá-nos só os mantimentos para prosseguirmos, dia a seguir a dia, numa dormência da bênção. Não se percebe o privilégio de estar vivo, pois os gaspares e coelhos colocam-nos a dúvida se a felicidade existe. Querem-nos acorrentados à exclusividade do trabalho, quando na verdade nos matam os trabalhos. Querem-nos a dar-lhes mais e mais dinheiro, quando na verdade nos tiram o dinheiro a ser ganho. Querem de nós tudo o que não temos.

Viver em crise é desviver. É oferecer o que não temos, a quem não merece que os mimemos. É recusar a bolha ao filho, para dar um bolo de notas aos líderes. Esta merda é viver em crise.

PS – Merda não é asneira, asneira é o que a governação nos fez.

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