És Ovar

Cedo caí nos teus braços, ainda vinha embrulhado nas mantas de bebé, engalanado nas chupetas e, pontualmente, nos biberões. E tu seguravas-me. Seguravas-me como se temesses que eu me perdesse, que eu caísse.

Sorrias-me no brilho dos teus azulejos, pela altura do verão. A forma como cada raio do astro-rei se batia contra as varinas ou os vareiros, desenhados com uma geometria de corpos de mulheres em tábuas de pedra, em azulejos coloridos. Casas, igrejas, calçadas, edifícios públicos, nada escapa à beleza dessa tua marca. Dessa nossa marca. No inverno, cai-se a chuva, tomba-se o mau tempo, e eles mantêm-se majestosos. Vêem a intempérie deslizar una, como se escrevesse um poema a cada gotícula; como se contasse uma história a cada pingo.

Não renegas a nossa marca de pesca, expões barcos com o brio de quem sabe que o mundo maior, o imenso, está no revolto do mar; no pacífico do transpor a linha do horizonte. São homens de camisas grossas, adivinhando o frio que o mar põe, que com valentia se atiram às ondas, como se todo o Universo dependesse daquela pescaria, como se uma sardinha salvasse uma criança em África, ou um carapau o velhinho em Timor. São heróis esquecidos pela austeridade, perdidos nas regras comunitárias, mas que divulgas nos teus painéis, nas tuas publicações pontuais. São heróis a quem fazes justiça, com a beleza que cedo captei em ti.

Fala-se do aglomerar das freguesias, do aglutinar das sedes sociais, e tu continuas com o Neptuno a vociferar que somos Ovar. Que não temos fronteiras, nem barreiras linguísticas, somos Ovar. Todos somos Ovar. Dizemos quilhómetros ou posjolhos, na troca natural de quilómetros e para os olhos, como marca da nossa unicidade. Como se um dialecto sem gramáticas, esdrúxulas ou graves, fosse uma marca nossa. Demonstramos sede de viver, de nos movermos, no aglutinador natural de vocábulos que fruímos. Ainda era miúdo e já ia pasjaulas, que não eram uma prisão, expressavam apenas a minha intrepidez de enfeixar palavras, para acelerar caminho. Para fazer futuro. Ovar é assim.

Desfilamos no Carnaval, criamos um PIB de sorrisos, capaz de saquear a fortuna dos bávaros, capaz de amedrontar o crescimento dos brasileiros. Somos uma medida de alavanque, um expoente de solidariedade alegórica. Com apoio na alegria, com extremo na exaltação. Não sabemos ser de outra forma, nem nos passos da Páscoa, onde solenizamos o catolicismo – que não pertence a todos -, com um respeito de quem sabe que em Ovar há espaço para a mescla da humanidade.

Crias artistas, sejam de novela, da televisão, da música ou da escrita. Somos uma cidade de miúdos atrevidos, que ambicionam ser filhos do mundo, com uma paternidade vareira que jamais negarão. Chegou o meu dia, lanço o meu livro e o palco é Ovar. Tenho mãe e pai, tenho namorada e amigos, tenho colegas e conhecidos, mas tudo se deve a ti, minha Ovar. Estás sempre aqui, a olhar-me, a segurar-me e a apoiar-me, como se ainda hoje estivesse naquelas mantas em que me acolheste. És a minha Ovar, do azulejo ao pão-de-ló, do Carnaval à procissão dos passos, dos pescadores aos pequenos artistas. És Ovar.

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