Oh mulher, e o que damos de comer ao miúdo?

casal, desempregados, filho a estudar, tristeza, desespero

A cozinha estava fria, com uma malgazita de sopa ao lume. Os móveis feios e velhos, as bancadas com a fórmica empenada, das chuvas que escorrem pelas telhas, e com a pia de fundura empedernecida.

– Já sei, Anabela, já sei. Está tudo uma borrada! – Vociferava o Carlos, num tom absorto pela demência.

– Calma, Amor. Eu sei que a culpa não é tua, nem minha, mas temos que pensar no nosso Gonçalito. Daqui a nada está aí a entrada para a Universidade e precisamos de arranjar maneira. – Objectava, numa voz resignada e sem resiliência.

– Eu sei disso tudo, Anabela! Eu quero que ele estude o que nós não estudámos, porém que raio hei-de eu fazer? – Inquiria, a flamejar pelos olhos, enquanto dava costas à mulher, olhando pela janela da cozinha, a chuva a deslizar no pequeno canteiro à frente semeado.

– Não sei, meu amor. Eu também ando atrás de jeito!

– Pára já com isso! Tu sempre te aviaste a trabalhar, e bem sabes que agora a tua saúde não está coisa boa. Já tens as pernas a dar de si, já devias ter sido operada, e não há um tostão roto. Eu é que havia de pôr comida na mesa, que até o nosso Gonçalito já só lancha uma vez por dia. Isto não pode ser, nao pode não! – A fúria do Carlos tombava, agora, para uma tristeza cheia de fundura, a bater lá nos calcários do poço.

– Mas tu tens procurado, Amorzinho. – Tentava, a Anabela, jogar a água para a fervura.

– Pois tenho, tenho, contudo do que me vale? Sou o raio de um velho, com quarenta anos, que já não serve para patavina! Passei a minha vida a arranjar as máquinas de tecelão, na fabriqueta do Asdrúbal, que coitado também não passa bem, e agora não sei mais que fazer. Só sei fazer aquilo que não vende, que não dá emprego.  Estamos na miséria e o nosso pobre Gonçalo, daí a pouco, nem que comer tem!

Abraçaram-se, com a chuva a fazer música de igreja na vidraça, enquanto choravam. De fato-treino e fechados em casa. Desempregados, os dois. Com um filho a estudar e com futuro pouco.

Este diálogo, forjado nos factos reais, só existiu para legar uma triste notícia: o número de casais desempregados disparou em Outubro.

Oh triste sina a nossa, com esta inveterada austeridade, que os advogados do diabo alertam que não será eterna. Se não será, se um dia voltarmos a ser o país das vacas gordas que os vossos antepassados inutilizaram, vão devolver-nos estes anos perdidos?

Sabem quantos futuros doutores vão findar na sarjeta, enquanto existem estes sacrifícios, que vos parecem tão pouco? Sabem quantos vão falecer-se no desespero? Sabem quantos iletrados estão a querer fazer? E a fome? Que se dane? Manda-se para o badagaio, pelo convenientemente do país que vocês estragaram?

Costumo ser moço de opiniões, de falas largas, mas hoje deixaram-me só com perguntas. Só triste.

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