Ainda se lembram desse verão?

Andamos todos igualmente afoitos, numa labuta diária para levar a bom-porto os nossos cometimentos, ou simplesmente para entregar ao chefe a nossa rotina com sapiência. Esse arrojo é semelhante ao do verão, contudo é manifestado e usado de forma dissemelhante.

No verão calçamos as havainas, telefonamos ao nosso amor e vamos à praia. Sorrimos com o sorriso que ela traz, viajamos pelas coordenadas daqueles calções, que lhe ficam tão bem, e soltamos-lhe um beijo sumptuoso, feliz. Espreitamos a Vogue que ela carrega no saco e não hesitamos em ir catar A Bola, o Jogo, ou o Record para a acompanharmos na leitura. Deitados na areia, rapinamos beijos e prantos de riso, dilúvios de gargalhadas. Não por estarmos particularmente engraçados, apenas pelo contentamento que nos emana de cada poro. Aquela jovialidade que abalroa até os mais velhos. Os pais mostram estar muito mais desligados daquelas miudezas, que tanto usam para nos empregar a educação. Sorriem com as piadas à mesa, com uma outra travessura que já não veste com a nossa idade. Parece que abriram a boca ao sol, e ele entrou. Engoliram o sol e expelem felicidade a cada palavra, a cada dicotomia que concebem naquelas encruzilhadas de falas.

Paramos num semáforo e no carro ao lado está um homem, ou mulher, a trautear as músicolas da moda. Chega, na insânia, a balançar um pouco os ombros e a dar às mãos – e nós sorrimos. Assim que sorrimos eles sorriem, percebem a tolice da sua postura, mas não querem saber. É verão, afinal. No jardim estão os velhinhos, a dizer aos netos que isto também já esteve custoso no tempo deles e conseguiram superar, que agora não será diferente. Que custará, que dará trabalho, não obstante, que ainda teremos um futuro que nos vai acarinhar o cabelo e fazer sorrir. Os namorados estão a passear na marginal, junto à praia, com caras de palermas e tão satisfeitos com isso. Ele, o que tem dificuldade de dizer amo-te, a berrar AMO-TE, como se quisesse que tanto o pequenino que veio ao mundo na Alfredo da Costa, como o indígena que se está a trilhar pela Amazónia, o ouvissem; ela, a insegura, sente que tem nas mãos o melhor namorado do mundo.

Já de férias, há os churrascos de fim de dia, com o sol a pôr-se bem à frente, a oferecer uma luminosidade tão laranja que parece que se está dentro das chamas que afagam a salsicha fresca, a fêvera e o belo pedaço de entrecosto. Encontra-se amigos de outras lides, que apresentam outros amigos, desconhecidos até então, e de repente passa-se uma soirée a caipirinhas e mojitos, que tinha começado numa imperial. As conversas fazem parecer que aquelas pessoas chegaram de outro mundo, que são extraordinariamente interessantes. São pessoas feitas do tecido do verão, aquele tecido fino e que voeja pelo mundo. Que narra histórias que nos prendem do primeiro ao último segundo.

Ainda se lembram desse verão? Eu já tenho saudades…

Cliquem aqui: Livro (ReALidades) – Ricardo Alves Lopes (Ral) 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s