A parte boa da mãe

O domingo estava a tombar sobre aquela pequena aldeola. O snack do Sr. Adosindo encontrava-se apinhado, tinha os velhotes a jogar às cartas, as senhoras a atentar no filme, que passava na SIC, e os mais novos a lerem uns jornais e revistas – e a fumar cigarros e beber cafés, enquanto esperavam pela mesa de bilhar.

O jardim permanecia ermo, cinzento, com as folhas a patinarem pela calçada, a amontoarem-se nas ladeiras dos bancos verdes. Um ou outro pássaro chilreava, indiferente ao tempo frio e escuro. Vinha um pai, de sobretudo cerrado até cima, quase a esganar, com um menino bonito de kispo e galochas, pela mão.

– Anda, filho, está muito frio!

– Estou a andar o mais rápido que consigo, papá. – Dizia o menino, derreado e sem forças para prosseguir a dar às pernas.

O pai num gesto terno, de amor incondicional, aconchegou o guarda-chuva no bolso lateral do sobretudo e içou o seu petiz para o colo.

– Encosta-te a mim, Bernardo! Para não apanhares frio na cara. – O menino encostou e sorriu.

– Gosto de ti, papá. Sabias? – Afirmava e questionava o pequeno, completamente aconchegado no colo do pai, e com um sorriso limpo e feliz. Cúmplice.

O Manuel não foi além de um olhar servente, de um beijo na testa e de um aperto forte contra si. Era o suficiente, o companheirismo dispensava as palavras. Tinham ficado um com o outro, quando, depois do parto, a mãe do Bernardo tinha fugido com o amante. Era seu chefe na empresa que trabalhava, na cidade.

O primeiro ano foi doloroso para o Manuel, com um filho ao encargo e sem o apoio de uma mãe, acabou por ser despedido. Depois de muito pensar, de rebuliçar em noites e noites, sem soluções em mente, acabou por granjear a coragem de projectar-se para trás, na esperança de, posteriormente, andar muito para diante. Legar uma vida de sonho, ao seu amor eterno. O pequenino Bernardo. Fez as malas e voltou para a aldeia onde nasceu, no interior do país. Numa escarpa que não aparece no mapa.

Pegou em todos os conhecimentos que tinha de gestão, ligou a todos os amigos da terra, ergueu ideias nas mesas de café do Adosindo e, com bravura, aproveitou um terreno, que os pais lhe haviam deixado em herança. Hoje, com o Bernardo já com 7 anos, tinha a sua vida estabilizada, dava todas as condições ao seu filho para ter um futuro belo e cheio de valores. A vida na aldeia não tinha aquela frivolidade da cidade, aqueles desvarios mundanos.

– Papá, já viste aquela senhora sozinha ao frio? – Perguntava o menino, com uma cara intrigada, os lábios semicerrados e olhar arregalado.

O Manuel encarou uma senhora, com um impermeável demasiado fino para aquele frio, aninhada num dos bancos do jardim, e a fumar um cigarro chorosa. Não resistiu e caminhou em direcção a ela, não a conseguia reconhecer.

Chegou e os seus olhos saltaram das órbitas, caiu-lhe o queixo pelas arribas do rosto e petrificou. Não pode ser, pensou.

– Quem é, papá? – Perguntava o Bernardo, com a sua voz mélica a escorrer por aquele jardim deserto.

Nesse instante a mulher levantou a cabeça, fitou-os com o olhar, e esparramou-se num prato de lágrimas incontroláveis. Esfumaçando cada vez com mais força.

– Bernardo, é, é…

– Não te enganes, Manuel! É a tua tia, Bernardo. – Assegurava a mulher, com um olhar triste, abandonado e feita num trapo.

O Manuel pulou fora de si, pensava que era mesmo ela. A mãe do Bernardo. Mas não, era a irmã gémea que ele nunca mais tinha visto. Estava sozinha e falida, a irmã traiu-a também. Fugiu para o estrangeiro, já com outro homem. Deixou-a na falência, depois de a roubar. E ela, desesperada, procurou o Manuel. Um traído de quem ela gostava.

O Manuel foi com a Maria para casa, deu-lhe um café quente, ofereceu biscoitos e mais tarde um pouco do vinho que produzia. O serão foi a saber as peripécias daquela vida tresloucada da irmã da Maria, da ex-mulher do Manuel e da mãe do Bernardo. O menino acabou por adormecer, no sofá em frente à lareira. O Manuel foi aconchegá-lo com uma manta e a Maria derreteu-se com a imagem.

– Sabes, o maior erro que a minha irmã cometeu foi deixar-te! Ela nunca encontrará um homem como tu!

O Manuel pasmou com aquela frase, ficou em pé ao meio da sala. A Maria avançou, tocou com os lábios nos dele e disse:

– Eu nunca a quis trair!

De repente, ficou a reminiscência de uma família feliz. O Manuel, o Bernardo e …  a parte boa da mãe.

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