O início do namoro…

O amor, usualmente, ergue-se assarapantado, de uns divertimentos que aos poucos se vão incendiando. Os encontros começam a acontecer mais a miúde, já que foi naquele bar que se viram a primeira vez, é aquele bar que os dois retornam. Expectantes de um reencontro, afoitos de um novo cruzar de olhar, de mais uma brincadeira apimentada.

A busca do outro nos chats e facebook começa a ser perseverante; as artimanhas para chegar ao número de telemóvel são a preocupação primordial; a procura da primeira indulgência, para expedir mensagem, é uma indecisão escarpada; a contenda por arquitectar mais uma questão, que estique a conversa, é o supremo desafio; a batalha por uma frase mais divertida, que desponte sorrisos e felicidade, é o centro da questão. E pum, fez-se a vizinhança. Entranhou-se o desejo.

Depois inicia-se o abrasamento, aquele calor bruto que bombeia sangue com chama, que arde a passar nas veias, que afogueia o corpo todo à espera do beijo. Aquele éden, em que as línguas se tocam, se embrulham em movimentos circulares e carnais. Aquele momento que as mãos se deslizam pelos contornos do corpo. A primeira vez que se sente um fio de pele, que se toca uma textura aveludada e se torna a frivolidade mais real, mais palpável, mais desejável. As mensagens começam a acalorar, já confinam o sexo, já expelem o desejo, já empolam a lascívia. A reticência feminina no início; o instinto matador masculino sempre. Tudo à procura do bom-porto que os leve à cama, ao amor estratificado em harmonias de sensualidade. Que distenda no tempo aquela paixão, que é a maior de todas.

A primária ida ao cinema, a escolha do filme demorado, que não ficará na história, que não se recorda o enredo, mas que jamais se esquece a mão dada; as pipocas atiradas para a boca; os beijos longos no escuro; as mãos de homem marotas a procurarem o fetiche do cinema; as mãos femininas a empurrarem e a sorrirem com marotice. “És tão atrevido!”.  A seguir vem a estreia no jantar, a escolha, pelo homem, de um prato que impressione – mas que raramente é acertada. A investigação de uma vista para o mar na vidraça, de uma decoração retro ou mesmo moderna, de uma ementa cuidada com design, e uma comida voluptuosa no prato. Está feito o clímax.

Chega o sexo, a união ancestral dos corpos. A extensão do homem para dentro da mulher, o toque da mulher no peito do homem, na feição das costas, o arranhar já descontrolado. Os movimentos contínuos e acelerados, completamente loucos pela estreita. Os gemidos fortes, daquela velocidade vertiginosa; daquela sensação de que se esperou toda a vida por aquele ápice. Apressa-se cada vez mais, o homem aperta-se na procura de prolongar, de retardar. Quer mais e mais daquele calor tão bom. A mulher repara nos detalhes apenas quanto baste, aquela quentura, que vem de dentro, superioriza tudo. Os vidros do carro todos embaciados, as respirações ofegantes, os corpos arquejados. A explosão de loucura, os gritos destemidos, as peles suadas. Os abraços nus, os toques pelas linhas do peito, pelo volume das coxas, pelo amanteigado da barriga, pelo doce do ventre. Os beijos vagarosos e sorridentes, cúmplices, carinhosos e, cada vez mais, apaixonados.

Daí avante, já se enceta o amor na cama – a toda hora. O idolatrar do melhor corpo já visto, o deleitamento fervido do melhor amor já feito. Aparece a perfeição. Os aconchegos nocturnos começam a prolongar-se. Primeiro, até às 5 ou 6 da manhã, depois até às 7 e, de repente, já se fica até ao meio-dia. Já se toma banho e já se almoça.

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