Exmo. Sr. PM dê-me só estes dois minutos…

Hoje é dia de greve geral, greve com a qual não estou de acordo, conforme referi no post de ontem. No entanto, também estou revoltado com os caminhos deste país, desta governação, por isso decidi publicar o meu texto, que saiu na edição de 05 de maio, no Jornal Praça Pública. Foi um, pequeno, grito de revolta!

Revolta. Pareceu-me uma palavra justa, agora que me está a ler, para resumir todo o meu primeiro parágrafo.

Sou um jovem a realizar estágio profissional, para licenciados – por alguns factores, só em Setembro último me foi possível iniciá-lo. Onde já iam os dois ordenados mínimos de direito, já havia mingado não sei quantos por cento, já não era isento de descontos. Fui ainda informado que, com isto, não ganhei direito ao fundo de desemprego, não que me interesse estar nele mas bem sabe que isto não está fácil, os 9 meses são somente considerados estágio, independentemente de estarem abrangido por descontos. Afiançaram-me, ainda, que não poderia estar mais que três meses de baixa, pois correria o risco de perder o direito a concluir o estágio, nesta ou outra empresa. Bem sei que a medida não é sua, mas sei também que o senhor a acusou, entre outras, de ser excessiva, no entanto agora vejo isto ainda pior. Elucide-me: quer com isto dizer que posso apanhar uma gripezita, porém nem pensar numa doença grave?

Acredito que já o saiba, ainda assim deixe-me lembrar-lhe, leva-me por mês mais de 100 €.

É normal que o desconheça, porque tem 10 milhões de pessoas para governar e uma troika para agradar, mas faço 60 quilómetros para trabalhar, 30 para cada lado. Até aqui nada que o Exmo. Sr. PM tenha responsabilidade, apenas o informo porque metade desse percurso é feito numa SCUT – naturalmente paga. Já fez o percurso Ovar-Porto pela estrada nacional? Se já o fez, que duvido, naturalmente estaria num dia com tempo, talvez uma peregrinação fosse opção. Já agora, permita-me perguntar-lhe: fez de jipe? Chegou em algum momento a sentir a trepidação dos buracos?

Há alguns dias tive um pequeno problema de saúde, não precisa de se preocupar que não é grave, inclusive já tive igual problema há algum tempo. Isso fez-me reparar em mais uma pequena, grande, alteração no nosso sistema de saúde. Nessa primeira vez estive a fazer curativo, vulgarmente chamado de penso, durante 15 dias, desta feita foi menos tempo, porém mais caro. Mais caro porque nessa altura o curativo era um direito, actualmente é uma regalia. Tive que pagar cada penso que fiz, taxado “á vontade do freguês”.

Caramba, Exmo. Sr. PM, eu percebo que necessita agradar os grandes da europa, a troika, que gosta de intitular de mercados, mas sabia que os elogios deles valem o que valem? Eles não são seus amigos, muito menos nossos, eles simplesmente venderam-lhe dinheiro. Assim, é natural que elogiem cada tostão que devolve, o que nós sofremos, a paragem da economia do país, a eles pouco lhes importa. Eu percebo que seria uma óptima bandeira, de campanha pessoal, afirmar que reduziu o défice, que pagou religiosamente cada centavo que havia sido emprestado, contudo sabia que também seria interessante haver país para os que a seguir vierem?

Exmo. Sr. PM, existe uma dúvida que há muito me corrói, não consigo deixar de partilhá-la: diga-me, não ‘expulsou’ de lá o Sócrates pelo PEC 4 ser demasiado austero?

Enquanto escrevo, ainda não sei a sua resposta à minha pergunta, mas apraz-me dizer que de semana a semana coloca isto cada vez mais austero. Tenho, também, a hombridade de confessar que não lhe invejo a posição. Agradar a 10 milhões não é fácil, é impossível, todavia não agradar a nenhum também não é tarefa simples. Eu sei que me poderá alertar que está a governar os erros do mandato passado, ao que  lhe direi: sim, é verdade. Não conseguirei é impedir-me de lhe dizer que o senhor PM, como pessoa inteligente que é, saberá tão bem como eu que isto vem mais de trás, desde os primeiros fundos que chegaram. Quem sabe, do tempo do nosso Exmo. Sr. PR. Aproveito este texto, este parágrafo, para lhe dar – a ele – os meus votos de boa sorte, na sua gestão da reforma. Árdua tarefa.

Seria com um enorme agrado que agora diria que foi um prazer escrever-lhe este texto, mas tristemente não foi. Foi um sacrilégio. Estamos a sofrer, Exmo. Sr. PM: saúde; ordenados; direitos; ensino; livre circulação. Coisas a mais. O cinto já não tem furos, a barriga já encolheu da fome, mas, ainda assim ,o cinto não tem furos.

Não sou economista, sou um pouco gestor, não de topo, contudo sou, acima de tudo, português, Exmo. Sr. PM. Dê-me ouvidos, só estou a apalavrar o que todos, os que não têm património digno de registo, sentem.

Gostaria de deixar uma última questão:

Mingou-me o ordenado, desconta-me mais de 100 € por mês, arrecada com o meu caminho para o trabalho, não me deixa estar doente, quando estou até um penso me cobra, o que posso eu fazer para ter direito a uma vida digna? Eu fui bem comportado, não tenho créditos contraídos, estudei, sou trabalhador, diga-me: o que posso fazer mais?

Atentamente,

Ricardo Alves Lopes (Ral)

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