Epá, olha como estás crescidinho!

É sensorialmente atraente a evolução dos seres-humanos. Fascina a passagem da inconsciência e inconsequência para um estado evolutivo que promove a formulação de opinião, sobre temáticas da actualidade e que nos influenciam.

Quando somos pequenos, ali na ténue linha da infantilidade para o revolucionismo e rebeldia da adolescência, e vemos os nossos pais a discutir assuntos que nos parecem bacocos e aborrecidos com amigos, ou a entusiasmarem-se com pessoas que nem sabemos quem são e que eles relembram a toda a hora que não viam faz uma eternidade, tudo enquanto nos exacerbamos nos bancos do café, com um beicinho feito, à espera da hora de ir pegar na playstation ou no computador.

– Mãe, quero ir embora!

– Não vês que o teu pai está a conversar?

Lá multiplicamos aquele beicinho, lá franzimos a testa e semicerramos o olhar. A mãe interpola-nos com alguma conversa e respondemos ríspidos, cheios de mimo, e todos as aborrecidos. Não raras vezes, cruzamos os braços com força, mesmo na frente do peito, e aumentamos ainda mais aquela cara de mauzões. De putos mimados.

– Pai, quero ir embora!

– Oh filhinho, tem calma, o pai está aqui a falar com o Asdrúbal, já vamos daqui a pouco.

É incrível! Eles ainda nos respondem com um sorriso, para depois fazerem algum comentário liquido e breve sobre nós, com o tal Asdrúbal, ou António, ou Carlos, ou Tonico, ou seja lá qual for o amigo que eles encontraram. Continuamos ali, com a cabeça na tecnologia que nos espera no quarto quentinho, conquanto os nossos pais – agora com a mãe também ao barulho – vão balbuciando impropérios para um tal de Coelho, para um Gaspar que não é fantasma mas, segundo eles, assusta, e para mais uns quantos nomes que não nos dizem nada.

Lá nos livramos daquilo, para ir no banco de trás aborrecidos e a sentirmo-nos esquecidos. A música do rádio a tocar e o pai a falar com a mãe sobre o casal que encontraram, sobre a forma como estão iguais, como ele fez bem de se divorciar da ex-mulher, como teve sorte de encontrar esta nova senhora – que parece tão respeitosa, como a outra, aliás.

– Porra, eles não percebem que estou chateado? Não vêem que eu apanhei uma seca?

Depois, chegamos a casa e os anos passam, caminham uns por cima dos outros. De repente, sem mais nem porquê, estamos numa mesa de café, com amigos da mesma idade a falar do governo, a expelir opiniões, a alinhavar expectativas de futuro e um café que era para ser de meia hora vira de três ou quatro horas.

– Epá, olha como estás crescidinho! – Devem pensar os nossos pais.

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