Presente Carnavalesco (Ep4)

O cansaço venceu-o e não havia como ler a mensagem. Deixou-se ficar, ainda que por pouco tempo. Eram 21h e o despertador já apitava estridente, com meia hora de atraso, ainda tinha que tomar duche e ir para a sede, novamente jantar entre amigos. O desfile das escolas de samba lá para as 22h30 já anda nas ruas, a probabilidade de ainda comer bem é escassa. Num salto pôs-se com a água quente a escorrer-lhe pelo corpo. Hoje vestiu apenas umas calças pretas, uma camisa à sedutor, abriu os botões, pôs colares e lançou o cabelo para trás, numa pasta de gel que só visto. Lá foi ele.

Chegou à sede e lembrou-se da mensagem, ficou aturdido, revolto e saudosista. Não eram aqueles sentimentos que ele queria para a noite vigente. Tentou abstrair-se com uma mini deslizante, goela abaixo, e com uma sande de leitão bem composta. Afinal, não haveria tempo para muito mais comida. O raio da mensagem voltava a atormentar e ele foi ler.

Marta Crispim – 15h58

Olá, Nuno. Como estás? Não queria que tivesses ficado daquela maneira, na quinta, mas tens que perceber que seguimos as nossas vidas. Não podes continuar preso ao que foi o passado. Ontem não te vi, ficaste em casa? Não podes deixar que isto te afecte. *

Vaca! Sente-se no direito de colocar-se no epicentro de tudo, como se só ela pudesse propagar ondas sísmicas, pensava para si. Enquanto lhe dava uma vontade grande de dizer o quanto se divertiu na última noite, ao mesmo tempo que retorquia, para dentro, que o melhor era ignorar. Estava ela a dar lições de moral, feita conselheira, sem ninguém lhe pedir nada.

Nuno Martins – 22h15

Olá, Marta. Sim, está tudo bem. Obrigado pela preocupação, mas dispenso-a, saí e diverti-me. Mais do que isso não te diz respeito. Um bom carnaval.

Uff, o que aquilo lhe tinha custado. Sentiu um alívio a arrepiar-lhe o corpo, escreveu caracter por caracter, exactamente, o que achava acertado. No entanto, agora que todos cantavam nas bancadas, á sua volta, ele segurava um whisky e pensava que talvez tivesse exagerado. Sempre nos demos tão bem, ela devia estar mesmo preocupada, exagerei!

22h53 – Nuno Martins

Desculpa a mensagem de há pouco. Estava acelerado! Sim, custou-me muito ver-te com ele, por tudo o que vivemos juntos, mas prometo que não deixarei que isso te atrapalhe. Tu mereces ser feliz. Beijinhos.

Foda-se, agora estava completamente ondulado por dentro, sentia uma raiva e ódio periclitante, por todas as suas vísceras. Para que raio fui mandar a segunda mensagem?  As escolas desfilavam com baterias em alta voltagem, com plumas esvoaçantes e sambistas de fazer cair o queixo. E ele naquilo. Num mundo seu, que já nem tinha mar, sol, ou chuva, era apenas escombros de um sismo passado. De rompante, foi abalroado pelos 30 e tal marmanjos a saltarem e um fósforo acendeu-se. Não era hora de pensar naquilo. Viu o Martim do outro lado, com o seu grupo, e fizeram um brinde à distância. O Tiago estava mais ao lado com a namorada, espreitava uma cerveja, mas naquela hora até parecia não ligar muito a Carnaval, ou não lhe convinha ver tantos corpos esvaziados de roupa. Minutos depois, cantavam em uníssono um kuduro da moda e dançavam como pássaros assarapantados de um disparo. Isto, sim, é carnaval. Não há bonito, nem feio.

Os confettis já alagavam a avenida, as sambistas já estavam compostas e os carros alegóricos escondiam-se, no escuro ao fundo da rua. O Nuno vinha enleado pela multidão a beber o seu copo, em palratório com um dos elementos da sua trupe carnavalesca, quando um murro lhe atinge o lado esquerdo da face. Foda-se, o que é isto?, gritou o amigo que o acompanhava e empurrou o feitor daquele acto. Ao mesmo tempo o Nuno era pontapeado pelo outro lado e sem conseguir reagir, tinha uns braços à volta do seu tronco a prender-lhe os movimentos, levava com uma visga esvoaçante de cuspe em pleno olho.

– Se voltas a mandar mensagens à Marta eu mato-te. Mato-te, seu palhaço! – Era o Pedro e os seus amiguinhos, todos de aspecto duvidoso.

Nesse instante, irrompeu um dos amigos do Nuno, de vulto considerável, qual armadura em ferro, e pontapeou sem piedade o Pedro. Projectou-o para o chão e agarrou-o, dando-lhe mais um murro e empurrando-o contra o chão, sucessivamente, a segurá-lo pelos colarinhos.

– No Nuninho não, anormal! Eu desfaço-te! – Replicava ele, completamente absorto pela raiva.

– Pára, John, por favor! Esse otário não merece isso, sequer. – Dizia o Nuno, preso pelos amigos do Pedro, que pareciam hesitantes em sair em defesa dele, tal era a ira do John naquele instante.

A multidão já se tinha assomado do local, novos e velhos, para perceber o que se passava. O Nuno escorria um pouco de sangue, no canto esquerdo do lábio, e o John tinha os nós dos dedos em ferida, do embate a cada vez que levava o ultraje ao chão. Estavam todos em alvoroço, preocupados com o jovem contabilista, quase gestor também. Enquanto ele pensava, completamente aluado, no que tinha acabado de se passar. Só tinha andado uma vez à bulha e fora no futebol, quando jogava na adolescência. Canalha, foi o que lhe afluiu com ímpeto à cabeça. Depois, ocorreu-lhe os cortes feios que o Pedro levava no rosto. Achava, inclusive, que o John lhe teria rasgado a orelha, ao empeçar na argola. Ele mereceu, era o que cogitava por muito que aquilo lhe custasse. Ele nunca foi de porradas.

Lentamente o ambiente foi-se aligeirando, já estavam pelo centro, junto ao bar verde, para beberem um copo juntos. Entraram e eram da casa, faziam festa rija e o Nuno embalava-se na agitação, para, no fundo, se acalmar. Apareceu a Ana e o João, o Carlitos, o Martim, o Diogo e o Tiago, que tinham-se juntado fazia pouco tempo, passaram para segundo plano. Miravam-no em conversa com ela, ao longe, primeiro com rostos fechados, com surpresa da Ana, para depois se aventurarem em sorrisos límpidos, festeiros. Pareciam balões a suspirar alegria, sobre a festa. Os amigos acalmaram-se, ao perceber que aquela porcaria com o Pedro estava esquecida. Lá foram todos para a praça das galinhas, o grupo em parcelas, os amigos inseparáveis e, agora também, a Ana, a Cláudia e mais duas amigas. De repente, pareceu que a Cláudia tinha um alvo desenhado na testa, tais eram os sorrisos que o Diogo lhe enviava, com aqueles olhos a expelirem marotice. Bem, mas isto é um aparte.

Na quinta e na sexta estava gente que afligia, mas o que dizer de hoje? Parecia uma reunião de chineses na muralha. No entanto, não interessava, o Nuno vinha numa cavaqueira pegada com a Ana, completamente eufóricos, o Diogo entretinha a Cláudia com o seu charme, e os outros falavam em voz alta para o seus copos e soltavam os corpos ao ritmo do pagode, que zumbava por todo lado. Estiveram por ali até às 6 da manhã, quando o Nuno se aproximou novamente deles.

– Pessoal, eu vou indo que ando morto e amanhã há desfile. – Os amigos chegados viraram o olhar para a Ana e o Nuno sorriu. – Sim, vou levá-la. – De resposta só uma gargalhada geral e um abraço de cada um.

Já passava das 7h15 quando entrou pela porta de casa, mas desta vez não houve rotina que vencesse, caiu para o sofá com a roupa que trazia vestida. Em menos de um segundo, um ronco prazeroso já se propagava pela casa deserta.

Eram 13h45, mais ou menos, quando chegou à sede para almoçar e vestir-se, seguindo depois para o desfile. Vinha completamente arrelampado, a fumegar nuvens de preocupação por todos os poros, o que levou os amigos à chacota. Que grande ressaca, apodavam eles.

– Não é nada disso! Estou lixado da cabeça, não encontro o Iphone  e já não pegava nele desde ontem, mal acabou o desfile. Não faço ideia onde o perdi, andámos em tantos sítios! – Estava consternado e com o olhar semicerrado.

Todos especularam, aqui e acolá, para no fim se perceber que a probabilidade maior estava naquele desassossego da bulha. Isso não o acalmou, mas teve que ir para o desfile e com a concentração de dar o melhor e divertir-se com os milhares de pessoas, dos 8 aos 80, que inundavam de enxurrada a avenida, não mais pensou nisso.

Já eram quase oito da noite, o corpo estava a dar de si e ele ia para casa, para um merecido descanso. O desfile tinha sido um hino ao carnaval. Chegou a casa a pensar que hoje jantaria sozinho e sairia apenas para um copo tranquilo. Pois, mas como é que combino com eles, sem telemóvel?    

Amanhã chega o último episódio (Ep5), do Presente Carnavalesco! Até já.

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